Revista
_ 09/02/07
_ arte.mov 2006


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Notas sobre a linguagem audiovisual em mídias portáteis e ubíquas. Ou, porque as redes não são mais as mesmas


A cultura de rede, hoje em dia, não é mais o lugar das utopias coletivas e da net art anárquica. Cada vez mais complexas (e cada vez mais atreladas à agenda corporativa), as redes atuais espalham-se pelo espaço físico, transformando conectividade e mobilidade em termos que não se restringem mais ao domínio dos especialistas. Pergunte a qualquer garoto na esquina.

O objetivo deste artigo, que toma a experiência do Telemig Celular Arte.Mov como estímulo para pensar a produção atual com mídias portáteis e ubíquas, é fazer um relato do Festival, inserindo-o num contexto mais amplo de trabalhos que investigam a linguagem de Palms, celulares, iPods e outros. A prática se consolida em exposições como [re]distributions, com curadoria de Patrick Litchty (que veio ao Brasil a convite do Arte.Mov) e trabalhos como Wop Art, de Giselle Beiguelman (artista pioneira no uso de telefones celulares, que teve sua primeira retrospectiva no Brasil durante o festival).

O foi-condutor do artigo será discutir de que forma a produção em mídias móveis se insere no contexto mais amplo de um processo em que a linguagem digital torna-se cada vez mais audiovisual. O foco não se deve apenas ao fato da linguagem audiovisual ter predominado no festival, mas também por que o contexto atual favorece a produção, a distribuição e o consumo de trabalhos com imagem e som, fora de seus circuitos tradicionais de exibição. Por isso, ao invés de comentar retrospectivamente os debates, palestras e mostras do Arte.Mov, será feita a inserção de resumos de cada uma delas em relação a discussões pertinentes.

As possibilidade oferecidas pelas mídias portáteis modifica a lógica da circulação de audiovisual, e aproxima o lidar com áudio e imagem em movimento de um fazer individual como o da escrita (acentuando o que alguns tratam como o caráter artesanal das mídias digitais). São práticas que estimulam um fazer em trânsito e compartilhado, que remete ao procedimento do narrador benjaminiano. O movimento randômico do código binário simula, emula e circula farpas de pensamento na forma de torpedos e downloads. A portabilidade dos aparelhos que vem definindo a cultura vigente transforma o bloco de notas num acervo de imagens e sons.

Dois exemplos são os movimentos em processo que Éder Santos rascunhou na Mostra On the Go, uma das seleções apresentadas no Festival e as paisagens de velocidades diversas de Giselle Beiguelman, que estrearam no Arte.Mov e estão reunidas em DVD lançado recentemente pela Galeria Vermelho.

Em fast/slow scapes, Beiguelman explora a fragmentação do olhar, resultado dos movimentos bruscos durante a gravação dos vídeos (sempre com a câmera na mão, em trânsito pelos mais diversos meios de transporte). A leveza do celular e a trepidação de carros, trens e barcos desenham a irregularidade dos travellings editados em processo que explora o trânsito entre os diversos sistemas de codificação de vídeo.


Railscapes, de Giselle Beiguelman: frame de um dos vídeos do DVD fast/slow_scapes, coleção de paisagens ao redor do mundo, recortadas pela lente em movimento do telefone celular.

No contexto de mídias portáteis e ubíquas, como o celular e similares, não é possível tratar o audiovisual da mesma forma que se faz com trabalhos para exibição em tela única. O que aparece como vídeo, nas várias interfaces atualmente disponíveis, é resultado de um processo de codificação em que não há representação, mas números em movimento por interfaces. A parte offline desta constação é óbvia (e antiga, basta lembrar dos textos de Edmond Couchot). As condições para fazer imagens e sons circularem pelas redes contemporâneas é mais recente. Talvez, por isso, a maior parte do audiovisual publicado na Internet, armazenado em iPods ou capturado com celulares poderia ser exibidos no cinema ou na TV sem prejuízo para sua fruição.

A mesa que abriu o Arte.Mov, “Produzindo para a Tela Pequena”, discutiu justamente as possibilidades e limites do audiovisual criado para telas menores do que o habitual. Mediada por Rodrigo Minelli, a mesa contou com a participação de Consuelo Lins e Luiz Duva, que apresentaram trabalhos recentes, e falaram sobre suas experiências como desenvolvedores. Além disso, apresentei um resumo dos artigos publicados na revista online do Arte.Mov, selecionando alguns trabalhos que considero relevantes para discutir a linguagem das mídias móveis. O parâmetro para selecioná-los foi o entendimendo dos aparelhos celulares como parte de uma cultura de rede, distribuída, em que os processos de conexão acontecem em fluxo.



Em O beijo, Luiz Duva recria com recursos de edição (ou pelo diálogo entre telas) sensações ausentes na imagem quando tratada como registro. O artista usa o vídeo para documentar o invisível.


Em Leituras, filme criado no metrô de Paris, Consuelo Lins explora a portabilidade do celular. O trabalho é construído a partir de depoimentos que não poderiam ter sido gravados, não fosse a facilidade de transportar uma câmera embutida em um aparelho de bolso. É a mesma motivação para O beijo, projeto de Luiz Duva criado a partir de uma cena capturada no calor do momento. Duva trabalhou a partir de uma cena gravada com seu celular, quando beijava sua namorada em uma festa de música eletrônica. Ambos os trabalhos lidam com o aparelho como câmera portátil, o que indica uma tendência recorrente de usar o celular como equipamento de vídeo ainda mais leve e discreto que as mini-DVs.

Não é o único ponto-de-vista vigente, apesar de sua predominância. Bons exemplos de alternativas podem ser encontrados na exposição CELL PHONE: Art and the Mobile Phone, que fica de 21 de janeiro a 22 de abril no Contemporary Museum, em Baltimore. No texto curatorial, Irene Hoffman explica que “o interesse em tecnologias de telefonia móvel para práticas artísticas não se restringe à produção de obras para dispositivos portáteis individuais, mas no potencial destas tecnologias para criar trabalhos que podem ser performáticos e participatórios”.

“Os circuitos de exibição e a tela pequena” foram tema da mesa em que Francesca Azzi, Simone Michelin, Morgana Rissinger e Lucas Bambozzi discutiram os formatos emergentes de exibição de vídeo. Segundo Bambozzi, “diante do compartilhamento de arquivos audiovisuais possível nessas tecnologias, vislumbram-se circuitos nômades, autônomos e em rede, que podem tanto constranger como potencializar linguagens”. Resta uma dúvida: será que ainda faz sentido pensar em termos de exibição, quando se trata de mídias que minimizam a fronteira entre produção e circulação, e permitem que o público seja o principal agente de organização do conteúdo?

Um bom ponto-de-partida para pensar esta questão são trabalhos de vídeo interativo ou colaborativos, como os documentários de Florian Talhofer ou The Echo Chamber Project, de KentBye. Em ambos os casos (os primeiros offline, o segundo online), as plataformas criadas para a construção do vídeo são tão importantes quanto o conteúdo propriamente dito. Tanto o Korsakov System, criado por Talhofer, quanto a combinação de XML e Final Cut, pesquisada por Bye, permitem organizar fragmentos de vídeo segundo parâmetros estabelecidos por meio de gerenciadores de mídia, ao invés de explorar as formas de edição tradicional.

A produção de vídeo para mídias portáteis ainda não conta com sistemas do tipo, mas certamente elas serão uma tendência. Em artigo publicado na segunda edição da revista online do Arte.Mov, Lassi Tassajärvi relata sua experiência como júri de um festival de roteiros de filmes de microcinema, termo que ele utiliza para denominar os trabalhos auidovisuais criados para celular. No texto, ele afirma que “os filmes de microcinema não são apenas filmes curtos vistos em uma tela pequena”. Conforme ele explica, este tipo de audiovisual “tem características que os diferenciam de outros formatos de filme, de forma que podem ser entendidos como uma forma de arte própria”.

Tassjarvi arrisca um prognóstico que desloca os trabalhos criados para e com celular dos circuitos de exibição tradicionais: “filmes do tipo tem seu poder expressivo, assim como suas limitações, atrelados às características dos terminais móveis. Por isso, filmes de microcinema não são concorrentes dos filmes distribuidos sob-demanda ou pela TV paga. Caminhos possíveis dos filmes de microcinema são usá-los como extensão das mensagens MMS e entretenimento em momentos triviais do cotidiano”. As estratégias para produzir desta forma ainda não estão claras (e, diante da diversidade que a cultura digital estimula, dificilmente será possível pensar as linguagens que emergem neste contexto em termos de especificidades).

Os trabalhos exibidos por Patrick Lichty na Mostra Mobile Exposure permitem expandir um pouco mais o debate. Boa parte deles dialoga no plano temático com a cultura do celular (como Over the Stars, de Melinda Rackham, Amor Es, de Sandoval, ou The Stolen Kiss, de Gould & Jackson). Outros exploram procedimentos da cultura digital (como Text Field, de Christinn & Jake Whyte & Messenger, ou Encoded Presence, de Makeo Takeo Magruder). Em ambos os casos, são trabalhos que se restringem ao formato de exibição tradicional, podendo inclusive serem distribuídos no formato DVD.


Over the stars inverte o jeito de olhar para as estrelas: o travelling que insere os pés do cinegrafista no quadro se tornou comum em vídeos feitos com câmeras de celular.

 

Apesar da postura teórica de estímulo ao fomento de novos formatos de audiovisual (o que ecoa na sua prática de desenvolvimento de comunidades cross-media), Tassajarvi também restringiu sua seleção da Mostra PixOff a trabalhos próximos dos formatos single-channel, como na divertida versão relâmpago de Romeo e Julieta, em que duas batatas fritas se suicidam com garfadas que fazem jorrar sangue (ou ketchup?) por todo o prato . Ou em Way to Go, de Samppa Kukkonen, em que a construção narrativa elaborada e a boa animação se prolonga por 6 minutos. Vale a pena questionar a pertinência de trabalhos do tipo: será que filmes de maior duração, assim como trabalhos de transmissão mais difícil são adequados para a exibição em tela pequena? Não seria importante adequar os trabalhos de audiovisual criados ao contexto de leitura descontraído e / ou entrópico em que normalmente eles acontecem?

O próprio termo “filme de microcinema” é sintomático de um ponto-de-vista que privilegia a miniaturização dos aparelhos, em detrimento de outras caraterísticas, como sua ubiquidade. Óbvio que as mídias portáteis podem ser deslocadas facilmente por conta de sua miniaturização, mas parece menos óbvio o fato de que isso implica em uma poética de conexões e trânsito que modifica a experiência do audiovisual não pela possibilidade de produzir para tela pequena, mas sim pela possibilidade de compartilhar experiências e borrar a fronteira entre produção e consumo.

Em New Screen Media. Cinema/Art/Narrative, Martien Rieser e Andrea Zapp afirmam que vivemos o início de “uma era de caos narrativo, em que as molduras tradicionais estão sendo superadas por tentativas experimentais e radicais de redesenhar a arte de contar histórias em tecnologias emergentes” . Nos melhores trabalhos em mídias digitais há uma amplitude de sentido não apenas no plano de sua fruição (como é comum na literatura, no cinema e nas artes visuais), mas também no plano de seu funcionamento, compartilhado com o usuário por meio de interfaces em que o produtor constrói o contexto em que a audiência deve atuar. A linguagem digital depende deste agenciamento para fazer sentido.

Por isso, é bastante precisa a observação de Sean Cubbit de que, “em seu formato digital, planilhas, bancos-de-dados e sistemas de informação geográfica são compenentes centrais do uso das novas mídias”. Para Cubbit, essa importância é sublinhada pelo que significam para a computação nos escritórios. Além disso, ele acredita que a convergência desses três sistemas em pacotes populares como o Microsoft Office e o Apple Works indica um grau de integração ainda maior que o reinvidicado por som, imagem e texto em comunicações multimídia em rede . Interessante observar, neste contexto, como hoje em dia os equipamentos de informática estão saindo do escritório, diante da possibilidade de utilização remota e nômade dos mesmos.

Na palestra O micromínimo comum, Giselle Beiguelman sustentou que o fator mais importante para se pensar as mídias de rede é sua possibilidade de ser ou não transmitida. Para Beiguelman, não é possível entender mídias como o Palm e o celular fora de uma cultura de rede em que os processos de linkagem são mais importante do que o conteúdo propriamente dito. E que o conteúdo não pode prescindir da possibilidade de ser, sobretudo, transmitido. Não se trata, no entanto, de delimitar fronteiras entre circuitos ou defender especificidades de linguagem — o que seria icompatível com a própria cultura de rede. Na internet, para o bem e para o mal, pode tudo.

Com formato menos consolidado, e atrelada à agenda de fabricantes e operadoras, Palms, telefones celulares, iPods e outras tecnologias portáteis colocam em cena uma diversidade de possibilidades e desafios ainda não totalmente mapeados. O Telemig Celular Arte.Mov desenhou um painel de tendências que surgem neste universo, ao combinar debates, palestras, exibições e mostras. Ao reunir realizadores e críticos de vários lugares do Brasil e do Mundo, o festival estabeleceu um ponto-de-partida para pensar temas emergentes, mas também conexões entre os diversos cenários em que a cultura de rede migra para contextos cada vez mais controlados.

Os eventos dedicados a trabalhos realizados com ou para o celular se tornaram relativamente comuns, agora que os telefones móveis tornaram-se um bem de consumo de massa. Em alguns países, como Brasil e Finlândia, o número de celulares já supera a quantidade de telefones fixos instalados. A tendência indica uma fusão entre as indústrias da comunicação e do entretenimento, ainda que atualmente não exista uma normatização sobre as formas possíveis de concretizar esta possibilidade. Nesse meio de tempo, o circuito se amplia.

Em 2004, o Festival de Curtas de Berlim foi palco do Siemens Micromovies Award, seleção realizada a partir de versões do Prêmio em 23 países. A versão brasileira do Prêmio aconteceu durante o Festival de Curtas de São Paulo. Esta escolha dos melhores filmes criados para celular desloca para o mundo do cinema o termo, comum no circuito de distribuidoras alternativas e incubadoras de formatos para telas pequenas — como é o caso da alemã MicroMovie e da americana Microcinema Internacional — e na pesquisa sobre a linguagem das mídias digitais, área em que o o conceito de Microcinema é usado por Lev Manovich para descrever os formatos breves (e leves) que surgem na Internet, antes mesmo das conexões de banda larga.

Exercício de microcinema, os Little Movies, de Lev Manovich, partem do pressuposto de que 100 anos depois de seu nascimento, o cinema está renascendo na tela do computador.

Este ano, aconteceu o Prêmio Telemig Celular Curta o Minuto para vídeos criados com celular, por realizadores como Jefferson AV, Carlos Canela e Gabriela Nogueira, entre outros. E o Motomix foi palco de uma mostra de trabalhos na categoria “Cinema de Bolso”, com trabalhos de Kiko Goifman, Tadeu Jungle e Beto Brant, além de seleção feita a partir de projetos inscritos por realizadores de todo o Brasil, como Aleph Eichemberg, Emanuel Teixeira e Filipe Araújo.

Todos eles partem do pressuposto de que os telefones celulares são uma plataforma flexível para a produção e a distribuição de conteúdo. É fato que os celulares facilitam a produção e circulação de conteúdo audiovisual, mas ao examinar um pouco melhor esta possibilidade, fica claro que a questão não se resume apenas a este novo desenho do trabalho com imagem e som, conforme já discutido acima.

Tratando o universo das mídias portáteis e ubíquas de maneira um pouco mais ampla, aconteceu em 16 e 17 de novembro, em São Paulo, o Mobilefest. O festival inseriu em sua programação tantos os vídeos premiados do Arte.Mov quanto a exposição “Antologia de Fragmentos Dispersos”, e Giselle Beiguelman. Além disso, reuniu intelectuais e artistas para discutir as mídias móveis, com especial atenção para um olhar sociológico sobre os celulares.

O formato de festivais dedicado à produção com mídias portáteis e ubíquas tende a se proliferar e diversificar. Conforme nota na Vox News, O Sundance Institute anunciou em coletiva recente que vai unir forças com a GSM Association (GSMA) para criar o "Sundance Film Festival: Global Short Film Project", com a exibição de curtas-metragens filmados através de celulares. Seis cineastas independentes já foram convidados para criar seus curtas e terão o trabalho exibido no próximo Sundance Film Festival, que acontecerá de 18 a 28 de Janeiro de 2007.

Na nota, Robert Redford, fundador e presidente do Sundance Institute, afirma que os celulares "estão rapidamente se tornando a “4ª Tela”, depois das TVs, cinemas e computadores. Acreditamos que está nova experiência só reforça a nossa dedicação em explorar novas plataformas para dar suporte à distribuição de trabalhos independentes".

Tomando a experiência da Internet como pano-de-fundo, é fácil perceber que as mídias de rede são muito mais do que meras facilitadoras da distribuição, na medida em que estabelecem práticas de conexão em que o trânsito é a mensagem. Um exemplo é o impacto do Napster nas formas de distribuição de música. Algo semelhante é possível no domínio do audiovisual, ainda que as poucas experiências que acenam com esta possibilidade, como o documentário colaborativo The Echo Chamber Project, e a comunidade cross-media PixOff, não tenham adquirido a mesma dimensão de fenômenos como o do YouTube.

Mas as questões ligadas às mídias móveis tem matizes que não podem ser desprezadas. A palestra de Patrick Lichty, “Mídias Móveis e Arte: Fontes, Direções, Futuros”, realizada na primeira noite de programação do Arte.Mov, expôs justamente uma arqueologia das práticas que surgem neste contexto, destacando o trabalho de artistas como Eduardo Kac e Otávio Donasci, e voltando à Valise em uma Caixa, o museu ambulante de Marcel Duchamp.

Para Licthy, quando Duchamp cria um museu transportável, em que carrega sua própria obra, ele leva ao limite o questionamento das insituições artísticas iniciado em trabalhos como In advance of a broken arm e Fonte. Além disso, o artista antecipa a possibilidade que mídias portáteis como Palms e celulares oferecem, de armazenamento e transporte de arquivos de texto, imagem, som e vídeo. É justamente este caráter de museu distribuído que Licthy explora, em seu Valise in an iPod . (link para artigo sobre Licthy).


Time Capsule, de Eduardo Kac, realizado em 1997 na Casa das Rosas: o trabalho, realizado na exposição Arte Suporte Computador (com curadoria de Lucas Bambozzi), explora a simbiose entre homem e máquina.

A pesquisa de Kac com arte telemática é bastante conhecida. A documentação dos projetos desenvolvidos pelo artista usando de fax e videotexto e a algortimos genéticos estão publicadas em seu site, e nos dois livros que lançou recentemente. Os trabalhos mais próximos do universo descrito por Licthy estão em Telecommunications Art e Telepresence and Interactive Works. Ao lembrar o trabalho de Kac, Licthy propõe um entendimento amplo do conceito de mobilidade.

Os trabalhos de Kac se organizam em temas ligados à robotização do corpo (como em Time Capsule) e à presença remota (como em Ornitorrinco). Nesse sentido, eles antecipam a presença de dispostivos informáticos no corpo, e a possibilidade de eles funcionarem como mecanismos que permitem o controle e a vigilância à distância. O mesmo pode ser dito a respeito de Donasci, criador da Videocriaturas. Ao fundir vídeo e performance, Donasci coloca o monitor em movimento pelo espaço, na medida em que ele se mistura ao corpo propriamente dito. Hoje é uma prática comum, quando carregamos iPods e telefones celulares com câmeras.

Para além da perspectiva histórica, Licthy apresenta também alguns trabalhos mais recentes, que ele destaca dentre as obras de [re]distributions, como Wop Art, de Giselle Beiguelman (link para Wop Art no Dossiê sobre Giselle), e Recombinant Icon, de Simon Biggs (link para Recombinant Icon no Dossiê sobre Lichty). Entre os trabalhos apresentados na palestra, um deles ainda não foi mencionado em artigos anteriores da revista Arte.Mov: Every Icon, de John Simmon. No projeto, criado para Palm, trata-se de uma grade inicialmente branca, que tem os pontos progressivamente preenchidos de preto, em combinações que (potencialmente) foram calculadas para gerar todos os ícones possíveis de serem construídos.


 

Every Icon, de John Simon: o trabalho estima o desenho de todos os ícones possíveis, ao desenhar infinitas combinações de quadrados pretos sobre grade branca.

Abordando um universo completamente diferente, Lassi Tassajärvi apresenta, após a palestra de Licthy, uma seleção de trabalhos Demoscene, e alguns exemplos pinçados da Mostra PixOff, estabelecendo um ponto-de-partida para sua fala do dia seguinte, em que usar sua experiência com comunidades de distribuição cross-media para alavancar uma discussão prospectiva sobre os desdobramentos possíveis dos telefones celulares.

Ao apresentar o festival PixOff, Lassi Tassajärvi sinalizou para a diversidade de produtos que são desenvolvidos para as mídias móveis, concentrando-se no cenário Demoscene, que é sua especialidade. O fascinante no universo Demoscene é o esforço para compactar, no menor número de bits possíveis, o máximo de informação. Trata-se de preocupação legítima, num contexto em que a transmissão de informações é determinante da experiência estética nas novas mídias. Mas o universo da Demoscene ainda é preso aos limites técnicos que ele mesmo se impõe, transformando a prática em desafio para peritos não necessariamente preocupados em ampliar as possibilidades estéticas da linguagem audiovisual.

Ao contrário do que pode parecer, a pesquisa com outras possibilidades dos telefones celulares não ficou restrita aos debates e palestras do Arte.Mov. Ela também aconteceu na exposição “Antologia de Fragmentos Dispersos”, que reuniu p conhecidos e inéditos de Giselle Beiguelman, em compilação que desenha um panorama da trajetória mais recente da artista. A exposição, assim como os debates, palestras e mostras realizados durante o Arte.Mov colocaram uma série de questões importantes para o entendimento de como a linguagem e os circuitos do audiovisual dialogam com as mídias digitais. Mas, não é paradoxal discutir tendências pelo registro do que está estabelecido? Não há uma defasagem entre as formas de exibição derivadas do single-channel e os desdobramentos das redes contemporâneas (cada vez mais complexas conforme a Internet passa a conviver com tecnologias GIS, etiquetas RFID, streaming de vídeo em comunidades virtuais, e outros)?

Não há resposta fácil para estas perguntas. A maior parte do material que o Arte.Mov exibiu mostra-se ainda próximo de fórmulas comuns nos circuitos mais consolidados do audiovisual. Apesar da diversidade do material apresentado, que vai do gráfico VD35162 ao bem-humorado Movietone Cara no Vidro, passando por experiências de visualização como as de Paradas, animações como BRLT_Bertoldo, e os tempos lentos de 0434, nenhum dos trabalhos selecionados explorou outras possibilidades dos aparelhos celulares que não fossem sua capacidade de exibir audiovisual (como um Media Player em um PC ou um aparelho de DVD). Por isso, é importante ampliar o apoio à pesquisa e o fomento ao desenvolvimento de projetos que experimentem as possibilidades de linguagem de Palms, celulares e similares, ao invés de reproduzir tudo o que você já sabia sobre vídeo, mas não tinha coragem de veicular.

Referência Bibliográfica:

Riser, Martin; Zapp, Andrea. “An age of narrative chaos?”, in: New Screen Media. Cinema/Art/Narrative. London: British Film Institute, 2002.
Cubbit, Sean, “Spreadsheets, Sitemaps and Search Engines. Why Narrative is Marginal to Multimedia and Networked Communication, and Why Marginality is More Vital than Universality”, in: Rieser, Martin; Zapp, Andrea. New Screen Media. Cinema/Art/Narrative. London: British Film Institute, 2002.

 

 

 

 



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