Arte/Cidade e Mídias Locativas
Uma das características mais importantes para pensar a importância do projeto Arte/Cidade para o contexto das mídias locativas é a relação orgânica proposta com os lugares em que acontece, além da articulação complexa de vetores (que antecipa o mapeamento amplo de infra-estrutura, economia e topologia presente em Macro). Os trabalhos de Brissac, como curador que propõe uma nova forma de intervenção urbana que se relociona com uma região ampla ao invés de um lugar específico, e atualmente como desenvolvedor de plataforma de mapeamento que serve como instrumento para artistas, urbanistas e outros, coloca em cena muitas das questões que foram se desdobrar nos debates sobre as mídias locativas, especialmente em suas relações com espaços urbanos.
Macro, de Nelson Brissac, é um dos projetos de mapeamento mais arrojados em desenvolvimento atualmente. Não é surpresa, tendo em vista o histórico do Arte/Cidade como espaço para pensar formas de ocupação de áreas urbanas amplas, em que os cruzamentos de sistemas e culturas desafia as especificidades que às vezes se pretende atribuir aos lugares. De certa forma, Macro é uma ferramenta que dá visibilidade à uma metodologia de pesquisa que lhe é anterior. Assim, pode ser lido como um gesto de tornar pública e disponível para artistas, produtores culturais, políticos, administradores, enfim, quem se interessar, uma técnica de pesquisa aplicada com sucesso em várias exposições que estão entre as mais instigantes das últimas décadas.
A segunda etapa do Arte/Cidade, com tema A cidade e seus fluxos, propõe um formato (que vai tornar-se cada vez mais radical nas edições seguintes) de atuação em áreas expandidas que implica em deslocamento do público e percepção de configurações urbanas amplas
Um aspecto que merece ser ressaltado no projeto de exposições criadas para intervir no tecido complexo de São Paulo é a constituição de redes entre os trabalhos, assim como entre a exposição e seu entorno. Este aspecto complementa um fator central do projeto, ressaltado por Brissac no texto de curadoria da terceira edição: as obras incluídas no Arte/Cidade “tendem a levar mais em consideração o sítio, a inserção arquitetônica, a escala urbana, a complexidade das situações (abundância de informações, coexistência com outras intervenções e atividades)”.
Além desta lógica de interferência no lugar, o Arte/Cidade passa a explorar espaços mais complexos, a ponto de introduzir dispositivos de conexão preparados para a exposição com o mesmo cuidado que as demais obras (e com igual importância). Este foco que vai ganhando amplitude é apontado por Brissca no texto que encerra a introdução do livro que organiza a partir da experiência do Arte/Cidade, Intervenções Urbanas. “As intervenções tendem, portanto, a não ser locais, mas a abranger áreas mais amplas, a partir dos territórios configurados pelos sistemas de transporte e comunicações e pelas grandes operações urbanas. Trabalhando na intersecção desses diferentes dispostivos, nos intervalos surgidos no tecido fragmentado e nos fluxos descontínuos da megalópole. Uma sobreposição de atividades e projetos, ativando diferentes características e escalas. Uma cartografia que opera por adição, tornando cada vez mais densa e saturada a situação”.
Neste contexto, e em meio a tantos projetos contundentes, aparentemente desenvolvidos com autonomia e vagar cada vez mais raros em exposições do porte do Arte/Cidade, pode parecer leviano destacar um ou outro. Mas a brevidade desta análise impõe este risco. Como justificativa para o recorte escolhido, o esforço para buscar nos cruzamentos intrincados da inteferência urbana de grande escala elementos que se conectam ao universo das mídias locativas. Além disso, serão abordados com mais detalhes dois projetos ainda não apresentandos na revista do Arte.Mov, motivo pelo qual não será feita uma análise mais longa de Leste o Leste?, obra de Giselle Beiguelman que propõe a sobreposição de espaços físicos e virtuais ao conectar a radial leste à Internet e usar os painéis eletrônicos da avenida como monitores de grandes dimensões.
O Kinotrem é um exemplo claro de como esta situação expandida, em trânsito por espaços complexos, sobrepõe configuração urbana e dispositivos comunicacionais. Concebido para “ser visualizado e visitado em três estágios distintos e complementares, que se inter-relacionam através de diferentes suportes e narrativas”, o Kinotrem fez parte da terceira etapa do Arte/Cidade, com tema A Cidade e suas Histórias. Conforme descrito em Intervenções Urbanas, o “módulo Kinotrem partiu de uma demanda do Arte/Cidade em promover a comunicação entre vários espaços”. Articulando vários conceitos, o projeto propunha “a exploração dos tênues limites entre atividades artísticas, de comunicação e de embate social”.
Outro exemplo é a intervenção de Maurício Dias e Walter Redwig na quarta etapa do projeto, o Arte/Cidade Zona Leste. O trabalho propõe “um mapeamento desse espaço denso e aparentemente opaco. Mas não se trata de um mapa urbano convencional, que indique a localização das edificações e equipamentos, as diferentes formas de ocupação e atividades. Isso não importa ali, onde a ocupação informal dilui todas as distinções e fronteiras. Na impossibilidade de traçar os contornos deste mundo fluído a partir de elementos fixos, eles trabalham com o que circula: os produtos vendidos pelos camelôs”. Apesar de fragmentária e pontual, esta breve seleção mostra como questões pertinentes aos debates sobre mídias locativas aparecem de diversas formas no Arte/Cidade, o que torna o projeto um antecedente que merece ser estudado com mais cuidado, por permitir entender diversos aspectos (artísticos, curatoriais, institucionais) do cenário de cruzamentos cada vez mais intricado entre espaço urbano e circuitos de comunicação.