Um retrato expandido dos processos de globalização e das formas de intervenção em megacidades
Nelson Brissac é poderia ser definido como um “filósofo e...”. Seu trabalho se espalha por livros, documentários, ensaios audiovisuais e exposições, sempre por meio de pesquisa minuciosa e olhar preciso sobre problemas atuais. Além de Arte/Cidade, projeto que dispensa apresentações, é o responsável por livros como Cenários em Ruínas, séries como Paisagens Urbanas, e a recente plataforma de mapeamento Macro, com pesquisa já bastante desenvolvida e atualmente circulando em versão beta que foi incluída no Programa Inter-simpósio do Arte.mov.
América, de 1989, é uma série de TV com percurso curioso. Um dos aspectos de seu roteiro é o exame da América como construtora de mitos modernos. Hoje, pela dificuldade de acesso aos programas, a própria série tornou-se um mito: dirigida por João Salles, a seqüência de cinco programas percorre um Estados Unidos em que o Vale do Silício e a sociedade da informação emergente surge na tela quando poucos haviam mostrado seus meandros. O roteiro, feito pelo diretor e por Nelson Brissac, propõe ousadias pouco comuns numa TV brasileira que já tinha visto Glauber Rocha e Tadeu Jungle desmontando formatos mas, na maior parte da grade, era previsível. O programa adiciona recursos de construção menos diretos, e introduz temas impensáveis, à tradição de documentários televisivos no Brasil – que tem um marco inquestionável, por exemplo, no perspicaz Teodorico, o Imperador do Sertão, de Eduardo Coutinho, um filme construído a partir da premissa de que a ilha de edição é coadjuvante, como forma de revelar o personagem sem muita interferência senão quando ela acontece por meio de provocações do diretor quando grava suas entrevistas. O mesmo procedimento de ampliar o leque de recursos da produção documental está presente em programas como Paisagens Urbanas (dirigido pelo próprio Brissac) e Ética (com edição de textos de Brissac).
Além do uso poderoso e sofisticado da fotografia, da edição com ritmo ágil para os parâmetros da época, e do conjunto de entrevistas exemplar, América é relevante para o debate sobre o audiovisual em mídias portáteis pelo formato que flerta com o ensaio, e pela atualidade do debate proposto nos momentos (não necessariamente centrais no documentário) em que mostra aspectos do proceso de globalização e o papel da informática na cultura contemporânea. Deste ponto-de-vista, a série de programas é importante para pensar o percurso da cultura rumo à constituição de espaços sobrepostos entre redes e cidades, hoje em dia bastante avançado (um tema que vai aparecer de maneira mais central nos trabalhos posteriores de Brissac).
Cena de América que mostra o interior despojado de um escritório no Vale do Silício: exemplo de uma cultura empresarial que mudou o mundo com toques de informalidade e cliques de mouse
Além disso, o material produzido para América circulou em trânsito entre formatos impressos e audiovisuais que remete ao atual mundo cross-media. O documentário gerou um livro em dois volumes, que justapõe diferentes visões dos Estados Unidos baseando-se numa extensa pesquisa de imagens e em entrevistas com nomes de destaque internacional do meio artístico, acadêmico e político. Entre as imagens reproduzidas, estão trabalhos de Frank, Cartier-Bresson, Wim Wenders, Andy Warhol, Cindy Sherman, Robert Rauschenberg, David Byrne e dos brasileiros Cristiano Mascaro, Cássio Vasconcelos e Bob Wolfenson.
Na introdução dos volumes impressos, Brissac lembra que a América é "o lugar mais fotografado do mundo, a ponto de suas imagens se confundirem com a própria realidade” Por isso, ela “não se deixa facilmente captar”. Brissac observa que alguns “fotógrafos e cineastas foram capazes, porém, de olhar de outra maneira aquela realidade”. Eram estrangeiros “que contemplavam pela primeira vez o país ou americanos influenciados por esta visão”. Para eles, “os arranha-céus, as estradas e as lanchonetes, emblemas tão desgastados do país, ainda guardam todo seu vigor”. Assim, “restituem o sentido e a capacidade de nos mobilizar destes símbolos".
Vários daqueles artistas citados estão presentes também no volume que reúne depoimentos, além de outros nomes de áreas diversas como Jean Baudrillard, Octavio Paz, Laurie Anderson, Paul Virilio, Noam Chomsky, Henry Kissinger, Timothy Leary, David Rockefeller ou Dennis Hopper. A publicação dessas entrevistas recupera parte do material que ficou de fora na edição dos programas para a televisão. Em conjunto, o filme e os livros representam um documento musculoso sobre uma época crucial para entender a cultura atual. O editor que reuní-los numa caixa com versões remasterizadas digitalmente fará uma contribuição inestimável para a contemporaneidade. A Wired já mostrou o caminho, quando relançou os livros que McLuhan fez em parceria com o designer Quentin Fiore, explorando formas de apresentar suas idéias com estruturas que combinam linguagem verbal e visual, comuns no design mais arrojado mas até hoje raras em livros acadêmicos.
A relação de Nelson Brissac com a TV (e outros formatos em que procura modos de pensar menos lineares que a do livro clássico) não é pontual. Ela demonstra um interesse em fazer circular para um público mais amplo idéias na maioria das vezes restritas a círculos de especialistas. É uma atitude pouco comum entre os intelectuais brasileiros. Ainda que a figura de intelectuais com idéias que circulam para o público pelos meios de comunicação seja recorrente, poucos deles se propõe a atuar em formatos que buscam uma intersecção entre linguagens que seja capaz de equacionar tanto as exigências do pensamento mais rigoroso que a Universidade produz quanto as demandas de entedimento amplo típicos dos meios de comunicação.
Além disso, este esforço provoca o efeito colateral saudável de contribuir para uma televisão mais diversificada, capaz de tratar de forma menos previsível temas da atualidade, ou incorporar em sua grade assuntos não tão evidentes. Não surpreende por completo que canais de televisão brasileiros abram espaço para experiências do tipo: apesar disto ser mais exceção que regra, são canais capazes de produzir programas inteligentes, quando se dispõe a sair da rotina de disputa por audiência. Não faltam exemplos, de minisséries com dramaturgia comercial mas com roteiros sofisticados e produção impecável a formatos menos previsíveis como os Contos da Meia-Noite (dirigidos por Éder Santos para a TV Cultura) ou o recente CQC (apresentado por Marcelo Tas na Bandeirantes).
Também é o caso de Ética, série de programas produzidos para o curso livre de mesmo nome, com textos que “procuram pensar as razões pelas quais os homens se comportam de determinada maneira e por que a maioria das doutrinas morais conserva vestítigos da servidão, no momento mesmo em que promete instaurar a liberdade”. O mesmo curso, organizado por Adauto Novaes, também gerou um livro publicado pela Companhia das Letras. Outro exemplo de projeto que articula vozes coletivas e propõe um trânsito entre mídias, Ética adiciona um ingrediente a mais ao já bem sucedido formato proposto por Novaes.
Mas o exemplo melhor acabado da sobreposição entre pensamento e imagens que permeia estes trabalhos audiovisuais entre o documental e o ensaístico é Paisagens Urbanas. A série propõe um passeio pela paisagem das cidades, com ênfase em São Paulo, e ponto-de-vista que mostra os lugares em suas frestas ou oferece olhares menos automatizados para a multidão e os cenários familiares. Além disso, intelectuais e artistas discutem temas como “Olhar”, “Memória”, “Janelas”, “Muros” e “Retratos”, em entrevistas generosas, editadas com plástica que parece fazer sua duração ficar menos perceptível. Uma combinação bem equilibrada de densidade de discurso e tratamento audiovisual sofisticado.
Cena de Paisagens Urbanas 1: ensaio audiovisual discute formas de olhar a cidade, num momento em que várias metrópoles do mundo consolidam seu processo de transformação em gigantescos enclaves onde a economia industrial é marca de um passado cada vez mais distante
Além da série que dirigiu, Brissac publicou um livro também intitulado Paisagens Urbanas. O volume apresenta “um estudo sobre cidades e como nelas situam-se as pessoas que as fazem e as habitam. A obra é uma reflexão sobre a arte em relação definitiva com o lugar”. Paisagens Urbanas, segundo seu autor, é principalmente “um livro sobre o olhar para as paisagens num mundo que está ficando opaco e já não se descortina como um horizonte sem fim”, por isso resultando em “uma reflexão sobre a arte em relação definitiva com o lugar. É a relação entre arte e cidade, despertando a experiência do mundo de que toda arte é expressão”.
Certamente esta inserção em circuitos de difusão mais amplos tem seu melhor exemplo no projeto Arte/Cidade, que reverbera as premissas do livro. “Um projeto de intervenções urbanas, que se realiza em São Paulo desde 1994, reunindo artistas e arquitetos, internacionais e brasileiros, voltados para situações urbanas complexas”. Conforme descrição no site do projeto, o Arte/Cidade “visa criar novas práticas urbanas e artísticas adequando a cidade de São Paulo à sua condição de cidade globalizada, uma vez que o Brasil está se inserindo no sistema econômico e cultural globalizado”. Desta forma, pretende “reestruturar e redesenvolver áreas críticas, ativando espaços intersticiais e incentivando a dinâmica de diversidade da megacidade”, permitindo introduzir “novas possibilidades de percepção das situações, através das relações com as diferentes escalas envolvidas e com os diversos processos urbanísticos e sociais implicados, as sucessivas restruturações espaciais e as distintas formas de ocupação”. No caso do Arte/Cidade, é o próprio espaço público e a teia de negociações necessárias para tornar viável um projeto desta magnitude que tornam-se um aspecto importante.
O primeiro Arte/Cidade, realizado em 1994 no Matadouro Municipal da Vila Madalena, explorou o tema Cidade sem janelas. Artistas como André Klotzel, Carmela Gross, Éder Santos e Livio Tragtenberg trabalharam a partir de uma lista de palavras proposta pelos curadores (Nelson Brissac e Agnaldo Farias). Em 1995, o tema foi A cidade e seus fluxos. Neste ano, em que “ocupou o topo de três edifícios na região central de São Paulo, a questão era: numa área urbana sem limites precisos, cortada por inúmeras vias de trânsito, tinha-se três prédios, com obras que tratavam do movimento, da luz, da leveza e da escala desmedida do lugar”.
A cidade e suas histórias aconteceu em 1997, “na Estação da Luz e um trecho ferroviário que atravessa os locais significativos do período fabril da cidade de São Paulo”. Nesta edição do projeto, o “público percorreu de trem esses diversos lugares, áreas inacessíveis à observação ocular e desconectadas da organização urbana da metrópole atual”. Entre os participantes, artistas como Cildo Meirelles, Nelson Félix, Rochelle Costi, Carlos Nader e José Miguel Wisnik, e arquitetos como Ruy Ohtake e Paulo Mendes Rocha.
2002 foi a ano do Arte/Cidade Zona Leste. As intervenções preparadas para esta edição ocuparam uma área de cerca de 10 km quadrados. A região foi palco da imigração e da industrialização paulista, mas a área se reurbanizou e “surgiram ali enclaves corporativos e condomínios habitacionais modernizados”, com “vastos intervalos abandonados” em que “proliferam favelas, comércio de rua e outros modos informais de ocupação do espaço urbano”. Os projetos preparados pelos artistas que participaram deste Arte/Cidade são “exemplares do impacto local da reestruturação urbana de toda a área, em função da consolidação de um novo modo de espacialização em grande escala”.
Além das exposições, que são o eixo central, o projeto Arte/Cidade tem em seu portfólio os CD-ROMS A cidade e seus fluxos (1995) e Intervenções Urbanas (1998), os vídeos Cidade sem janelas (1994), A cidade e seus fluxos (1995) e A cidade e suas histórias (1998) e a graphic novel com tom de ensaio As máquinas de guerra contra os aparelhos de captura (2002). São contribuições importantes para os desdobramentos da arte contemporânea no Brasil, ao permitirem a experimentação nestes formatos, onde poderia se supor formas convencionais de documentação. No conjunto, uma visita ao site do Arte/Cidade equivale a um passeio por uma estrutura capaz de fomentar várias das realizações mais inquietantes da arte atual, funcionando com uma espécie de laboratório para a experimentação com formatos que demorariam a ser absorvidos pelo circuito mais convencional.