De volta para o futuro: a cinescritura em trânsito de um dos 100 inovadores do século
Mark Amerika foi escolhido para revista Time como um dos 100 inovadores do século. Seu trabalho é um exemplo potente das possibildidades que a escritura em rede oferece. Sempre desafiando limites e fronteiras, Amerika mostra no 4º Vivo arte.mov uma prévia do longa-metragem Immobilité, primeiro longa-metragem de arte filmado com telefone celular. Levando adiante suas pesquisas em direção a um método de produzir pensamento por meio de fluxos multimídia, o filme combina elementos da cultura remix em que o artista sediado nos Estados Unidos transitou (por conta própria ou sob o guarda-chuva coletivo do DJ RABBI, em que assumiu a persona de Kid Hassid) e desdobramentos da cultura das redes sem-fio conectadas a partir de dispositivos portáteis que se consolida com a popularização de telefones celulares e outros dispositivos portáteis.
Mark Amerika teve receio de abandonar o controle autoral comum em suportes fixos como os livros que o acompanharam da infância à adolescência. Rapidamente, percebeu que as narrativas fluídas possíveis na Internet (na ocasião de suas primeiras experiências ainda emergente) permitiam mais ganhos que perdas. Mudou de atitude: seria a rede um livro unificado para onde convergiriam todos os textos gerando um biblioteca sem precedentes disponível àqueles que ousassem decifrar seus enigmas? Em seus embates pioneiros com esta Internet que ainda se modelava (permeada por utopias de descentralização e compartilhamento), Amerika peregrinou por paragens diversas, experimentando formatos de livro que passam pelo hipertexto, pelo PDF, por interfaces Director com mp3 inseridos gerando livros sonoros navegáveis, por interfaces Flash que flertam com as formas de organização dos games. A seguir, um resumo desta trajetória que leva a Immobilité, projeto (como sempre) ambicioso, cujo formato final terá lançamento brasileiro ano que vem, com exclusividade pelo Vivo arte.mov.
Grammatron foi desenvolvido entre 1993 e 1997, como um “ambiente narrativo de domínio público” que inicia a trilogia de net art em que Mark Amerika via investigar as possibilidades da escritura online. Conforme o texto de descrição no site do projeto, são “mais de 1.100 espaços-textos, 2.000 links, 40 minutos de trilha sonora original distribuída por Real Audio 3.0, estrutura única de hiperlinks criados com scripts Java desenvolvidos especialmente par o projeto, uma galeria virtual com roteiros animados e imagens estáticas, e mais desenvolvimento de mundos-estórias que qualquer outra narrativa criada exclusivamente para a web”.
Os números surpreendentes remetem a um momento em que a internet parecia um livro infinito (às vezes labiríntico), com capacidade de armazenamento e difusão sem precedentes. Também remete a uma época em que o texto invadia a tela em meio a uma profusão de declarações sobre o vigor de uma cultura eletrônica baseada em imagens videográficas agitadas e porosas, como resultado das possibilidades de manipulação em equipamento que então dissipavam a dureza seqüêncial do cinema com a simultaneidade de janelas em convivência e imagens sobrepostas.
Mas Grammatron também tem aspectos ensaísticos e ficcionais que merecem ser destacados: “uma história sobre ciberespaço, misticismo da Cabala, paraocorrências de di(gi)nheiro e a evolução do sexo virtual em uma sociedade com medo de ir para a rua e entrar em contato com sua própria natureza”. Um texto sobre “um mundo futuro-próximo onde estórias não são mais concebidas para a produção de livros, ao invés disso são criadas para um ambiente narrativo-em-rede mais imersivo que, acontecendo na Net, coloca em questão como as narrativas são compostas, publicadas e distribuídas na era da disseminação digital”. Mais zeitgeist: a rede na época de Grammatron nem era chamada de Net (com letra maíscula e sem os recursos gráficos que foram gradualmente constituindo a web, hoje marcada por sistemas de auto-publicação e redes sociais que a fazem 2.0).
Grammatron difere de muitas das primeiras experiências com hipertexto, que são marcadas por uma ênfase (às vezes exagerada) nas possibilidades de navegação, e restritas a uma escrita verbal crivada de links: o projeto de Mark Amerika já indica uma busca por formas de mistura entre linguagens e uso de elementos dinâmicos que constróem uma escritura em que a leitura depende em parte das ações do usuário, mas em outros momentos toma decisões aparentemente autônomas (numa metáfora poderosa de uma escrita-máquina que ora parece sob controle, ora parece operar por meio de comportamentos que emergem de seu próprio sistema)
Todos os elementos do que Amerika foi posteriormente chamar de cinescritura (em ensaio sobre o projeto que vai completar sua trilogia de net art, Filmtext) estão contidos nas páginas de Grammatron e discutidos em Hypertextual Consciousness, o ensaio em links que complementa esta gramatologia transferida para os cálculos na época ainda lentos do silício. A articulação entre ficção científica, literatura de vanguarda, cultura pop e arquitetura da informação é tipíca do que o artista vai denominar Avant-Pop: “ainda que seja verdade que certas correntes do Pós-modernismo, Modernismo, Estruturalismo e Pós-estruturalismo, Surrealismo, Dadaísmo, Futurismo, Capitalismo e mesmo Marxismo prevejam a nova sensibilidade, a diferença é que os artistas que criam Avant-Pop são as Crianças das Mídias de Massa (mais que filhas de seus pais que tem muito menos influência sobre elas). A maioria dos praticantes do Pós-modernismo, que chegou à vida adulta ativa nos anos 50, 60 e início dos 70, tentaram desesperadamente manter-se distantes da vanguarda das novas poderosas Realidades Midiagênicas que estavam rapidamente se tornando o lugar onde a maior parte de nosso intercâmbio social acontecia. Apesar de sua insistência inicial em continuar presa a pressupostos elitistas de auto-institucionalização e incestualidade do mundo da arte e da academia, o Pós-modernismo se viu tomado pela engrenagem popular da mídia que eventualmente o matou e de seus restos surgiu o Avant-Pop”.
Concentração de conceitos mais síntese na elaboração, em procedimento que busca uma aura de acessibilidade para as formas de criação engajadas no diálogo com o contexto de cidades cada vez mais mediadas (que remonta a Baudelaire, a Mallarmé, ao Passagenwerk de Benjamin, à poesia concreta e visual, às formas poéticas em mídias audiovisuais, mas assume outras facetas em um mundo onde a brevidade do videoclipe é a assinatura de uma cultura que tende cada vez mais ao efêmero e ao breve). Neste sentido, o trabalho de Mark Amerika é um representante da fusão entre pop e experimental típicos das manifestações mais potentes da cultura atual.
“Linko, logo existo”: a teoria remix em forma de aforisma é uma das práticas recorrentes de Mark Amerika, responsável por várias das frases-síntese mais precisas sobre a cultura em rede e seus desdobramentos
Pho:ne:me (as pronúncias possíveis do título que aglutina conceitos são PHO-neme ou phon-E-me). Nemes fonéticos ou e-telefonema estão contidos no título escolhido para nomear esta mistura de album conceitual que desloca a escritura novas mídias para um modo de circulação que une aspectos de oralidade e pitadas de cultura rock — deslocada para as tessituras eletrônicas mais comuns nos mp3s que compõe este disco online coleitvo herdeiro de Pet Sounds e Dark Side of The Moon mais pela estrutura amarrada em torno de um tema que pela sonoridade. Mais uma vez Amerika, agora em entrevista a Steve Dietz (que foi curador do projeto no Walker Art Center): “todos os artistas envolvidos trazem habilidades completamente diferentes para o projeto. Erik [Belgum] contribui na experiência experimental de escrita-som, Anne [Burdick] na experiência design/escrita estado-da-arte, Brendan [Palmer] na experiência DJ juventude sônica, e Cam [Merton] trás o ângulo artista-como-programador /.../ o trabalho de todos em Pho:ne:me é informado pelo planejamento conceitual que eu trouxe para o projeto e que em última instância se manifestou como escrita /.../ Escrita como texto, escrita como som, escrita como design de interface, escrita como experiência”.
O terceiro componente da trilogia net art de Amerika é Filmtext. Entre conto, filme e game, este aplicativo em Flash relata a saga do pensamentógrafo, uma inteligência artificial que perambula por cenários desérticos e ambientes nulos (e permeados de mídia), espalhando de forma viral histórias apropriadas, ele nem se lembra exatamente de onde. Entre discussões sobre o estatuto da imagem no ambiente digital e o surgimento de comportamentos autônomos na rede, o projeto experimenta novas formas de montagem entre texto, imagem, som e código. O resultado é uma escritura fluída, que avança nas pesquisas indicadas em Grammatron. Em Filmtext, fica ainda mais evidente que a estrutura de navegação (e as possibilidades de hipertexto) não são o aspecto mais relevante da linguagem quando trasportadas para interfaces criadas com seqüências algorítmicas.
O corpo como hospedeiro de eventos biológicos: um dos aspectos da poética de Mark Amerika é a relativização do lugar do homem no mundo, numa espécie de antropocentrismo que resulta da percepção de que o corpo acontece em interface com máquinas e organismos que otimizam ou prejudicam seu funcionamento
O conceito de cinescritura aponta para uma linguagem pós-retiniano, e mesmo pós-conceitual, em constantes fluxo: "“Falando conceitualmente, o retiniano foi substituído pelo ideacional que foi, por sua vez, substituído pelo digital.
Vendo-forma, o resíduo de todas causas perdidas, sofre de alucinações negativas, ou seja não ver o que está de fato ali. Vendo-forma, a medida da Cinescritura conforme ela conta uma história diferente toda vez. Esta história não é diferente.” Nos desdobramentos mais recentes, Amerika vai examinar como estes fenômenos acontecem nas interfaces portáteis de aparelhos como telefones celulares.
Vai nesta direção
Mobile Phone Video Art Classics, que mistura instalação em DVD, blog performance e apresentação PowerPoint. O projeto re-edita a história da arte usando telefones celulares e o software báisco iMovie. Estrelando Salvador Dali, Bruce Nauman, Mark Amerika, Nam June Paik, Baby Jane Holzer, Susan Sontag, Marilyn Manson, e Madonna. No papel deles mesmos.
Immobilité radicaliza nesta direção. Com toques de ficção científica e construído a partir de remixes de suas próprias cenas, o longa explora possibilidades da cultura digital para a realização de filmes com fôlego maior que o dos formatos curtos típicos do audiovisual produzido com mídias portáteis. Partes do projeto, que está sendo concluído por Mark Amerika usando apenas câmeras de telefone celular, já estão online em http://www.immobilite.com. Considerado pelo autor um “filme estrangeiro”, o longa em processo tem carreira com duração maior que o conjunto de seqüências do filme publicadas no site até o momento. A história sobre um “mundo futuro onde o sonho de viver em utopia só pode ser sustentado por uma tribo nomádica de artistas e intelectuais” já teve exibições prévias na Tate Britain, no Chelsea Art Museum e no Streaming Museum. O projeto dialoga com experiências anteriores de Mark Amerika, como Filmtext e SoS (a digital remix), realizado com o coletivo DJ RABBI.

Uma história sobre um mundo futuro no qual o sonho de viver em utopia só pode ser sustentado por uma tribo nomádica de artistas e intelectuais, Immobilité, de Mark
Amerika, mistura a linguagem dos “filmes estrangeiros” com a pintura de paisagem e a metaficção literária. O trabalho composto usando um método de atuação sem
roteiro, improvisacional, e imagens gravadas com telefone celular com estilo intencionalmente amadorístico ou DIY [do-it-yourself, faça-você-mesmo] semelhante às formas em desenvolvimento de vídeo distribuído em ambientes de mídia social como o YouTube. Ao interfacear esta forma lowtech de fazer vídeo com formas mais sofisticadas e filmes de arte europeus, Amerika ao mesmo tempo pergunta e responde a questão: “Qual o futuro do cinema?”.
Ao se colocar o desafio de transferir para um formato mais longo a estética geralmente atrelada à participação do usuário, até então típica da maioria de seus trabalhos, Amerika coloca-se diante de um desafio duplo: fomentar formatos de cinema em sintonia com a cultura da mobilidade que se consolida; e testar outras possibilidades de sua cinescritura, ao inserir o procedimento em um contexto de fricção entre cinema e formatos audiovisuais emergentes que já rendeu resultados do porte de Histórias do Cinema, tour-de-force de apropriações, interferências e elipses criada por Jean-Luc Godard. Trata-se de um passo ambicioso, não fosse o histórico de projetos bem-sucedidos realizados por este que é um dos artistas mais importantes da cultura digital.