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_ 01/10/09
_ performances audiovisuais


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“Você estava de volta ao bairro, em alguma esquina à minha espera”


Parte da programação do 4º Vivo arte.mov será composta de performances audiovisuais consagradas. Terra Nova, do DJ Spooky, inaugura a programação deste ano como parte das atividades do Vivo Lab. Stereophonic, do AntiVJ, celebra a parceria com o Eletronika (berço do festival por meio do Fórum de Mídias Expandidas) e reforça o diálogo entre as programações complementares que em algumas edições do Vivo arte.mov foram responsáveis por espalhar por Belo Horizonte imagens, sons e obras de ponta de forma quase ininterrupta. Da obsolescência programada, de Lucas Bambozzi, Jarbas Jacome e Paulo Beto, leva à Minas a apresentação bem-sucedida que estreiou na edição comemorativa do On/Off, mostra de imagens ao vivo do Instituto Itaú Cultural.
“Thanks for coming up, here we go!” Nem precisa o bordão registrado no YouTube se repetir dia 04 de Novembro, antes do DJ Spooky explicar o conceito de Terra Nova, sua sinfonia sobre a Antartica que mistura John Cage com aula de geografia. O momento histórico está garantido. Pela primeira vez um dos artistas mais importantes da cultura remix se apresenta no Brasil. A iniciativa também inaugura oficialmente o Vivo Lab, projeto que sistematiza e amplia o fomento aos desenvolvimentos locais das mídias locativas iniciados no Vivo arte.mov por meio do Prêmio de Artes Locativas do Festival.

Terra Nova: Sinfonia Antarctica é uma performance multimídia que propõe “um retrato acústico de um continente em rápida transformação”. Super-produção das poéticas em tempo real, o trabalho leva ao público o “encontro individual de Miller com uma paisagem áspera e dinâmica”, em imagens em que Spooky transfere sua experiência no continente mais comentado que visto “para retratos multimidiáticos com música composta para as diversas geografias que fazem a massa terrestre”. O material que forma a base da apresentação foi gravado “através de um estúdio portátil, criado para captar as qualidades acústicas das formas do gelo na antárctica, o que reflete um ambiente em transformação e desaparecimento”. Fiel às práticas de reciclagem onde consolidou seu trabalho com obras que já são referência da cultura contemporânea, como Errata : Erratum e Rebirth of a Nation, Spooky se vale também de “imagens históricas, científicas e geográficas”, para compor sua performance de 70 minutos que “cria um momento único e poderoso em torno do relacionamento do homem com a natureza”.

 
Águas geladas, cientistas frios e imagens quentes: o DJ Spooky em ação com suas pickups multimídia, acompanhado do Alter Ego Ensemble, no Next Wave Festival (Melbourne, 2009)

A natureza anda em alta no banco-de-mídia recente do também pesquisador Paul D. Miller (nome físico embutido no codinome Spooky). Em The Nauru Elegies: A Portrait in Sound and Hypsographic Architecture, parceira com Annie Kwon, o tema é a pequena ilha que abriga a República de Nauru, ao sul do oceano pacífico. Certamente influência de outra compositor que circula pela case eclético do DJ Spooky. Em Das Kunstwerk der Zukunft (A Arte do Futuro), Richard Wagner diz que 'o homem está para a natureza assim com a arte está para o homem'. Considerada o estado menos independente do mundo, a ilha é retratada neste projeto que “busca a combinação de elementos que torna um lugar tão remoto um membro central da comunidade global do século 21”. O foco do trabalho é estado de colapso ambiental da ilha, tema trabalhado ao som do contraste entre colonismo e pós-colonialismo. Com pretensões ensaísticas, The Nauru Elegies procura traduzir a economia digital do século 21 em acordes de quarteto de cordas e imagens de componentes arquitetônicos. “Retratos de uma arquitetura hipotética de interações financeiras offshore em colisão com a infra-estrutura física de Nauru são criados visualmente”, conforme o texto explicativo publicado no site do DJ Spooky.

Fica claro que o movimento na direção de imagens mais sublimes não se sobrepõe à verve política marcante nas pesquisas e obras de Spooky, conhecido por questionar a história wasp do país em que vive, tanto em livros como Rhythm Science, uma história da música que coloca o ritmo, o schratch e o sampler em primeiro plano ao reinvidicar a proximidade entre as práticas de DJaying e as formas de escrita, quanto em perfomances como Rebirth of Nation, que denuncia o sotaque racista de um filme considerado inaugural da narrativa cinematográfica: o classico Birth of a Nation, lançado em 1915 por D. W. Griffith.


Palco e painel de controle: a interface de Errata Erratum, que permite remixar a obra de Marcel Duchamp, é um dos primeiros trabalhos remix que foi incorporado ao circuito da arte contemporânea, ao ser adquirido pelo Museu de Arte Contemporânea de São Francisco.

Rebirth of a Nation reverte “uma das imagens definidoras dos EUA no século 20, de como os americanos criaram uma ficção de uma cultura afro-americana a partir da fabricação de "brancura" que permeou o  pensamento americano durante a maior parte dos últimos séculos, o que em essência nunca existiu”. Para Spooky, remixar “o filme de acordo com a cultura DJ” permite “criar uma narrativa em contrapartida” à história oficial. Talvez este seja seu trabalho mais conhecido. Rebirth of a Nation representa uma síntese das diversas facetas de Paul D. Miller: intelectual preocupado em legimitar outras histórias da cultura, artistas comprometido com o cruzamento entre as práticas da cultura remix e os procedimentos da cultura audiovisual contemporânea, DJ versátil que já colaborou com artistas tão diversos como Dave Lombardo (ex-Slayer), Yoko Ono e Dub Pistols.


Live Painting/Shackleton: performance do AntiVJ em Bristol, no Reino Unido

Menos conhecidos no Brasil que o DJ Spooky, o AntiVJ é um dos principais coletivos audiovisuais da Europa. Formado por  Yannick Jacquet (Legoman), 
Joanie Lemercier (crustea), 
Olivier Ratsi (Emovie) e 
Romain Tardy (Aalto), o AntiVJ é um selo visual “cujo trabalho é focado no uso da luz projetada e suas influências em nossas percepções”. Em suas instalações e perfomances ao vivo, o grupo utiliza “técnicas não convencionais, usando grande volume de projecções, visual mapping, realidade aumentada, esterioscopia e ilusões holográficas, criando projecções monumentais em espaços públicos, oferecendo uma nova possibilidade de perspectiva em espaços sociais e comunicação cultural”.

Um exemplo é Live Painting, de 2004. Apresentada numa noite de Dubstep no clube Croft, o projeto experimentou formas de execução ao vivo baseadas em elementos minimalistas, linhas retas, geometria, grades, cubos. O objetivo foi explorar “novos padrões e formas criados com desenhos a mão e sofáwares 3D”. Live Painting foi criado com a influência assumida de “Martin Böttger,  que desconstrói objectos 3D em formas orgânicas e dinâmicas, misturando técnicas diferentes como animação, colagens, escultura e instalações”.

Vai na mesma linha 3-Destruct, trabalho incluído na Bienal de Arte Contemporânea da Bélgica, onde foi mostrado em maio de 2007. Trata-se de uma instalação imersiva, que adiciona um elemento que tornou-se importante na estética do AntiVJ: a tridimenstionalidade. O projeto é um grande cubo semitransparente que  gera luz e som. Segundo o texto no blog do AntiVJ, a “medida que o visitante anda pela estrutura, ele perde sua referência espacial neste universo não-linear que destrói qualquer coerência especial”.


3-Destruct: projeto explora o intervalo entre os mundos físico e virtual, na medida em que pesquisa formas de inserir o público no mundo de imagens abstratas que constrói.

A performance que será apresentada em Belo Horizonte é um desdobramento destas pesquisas com a tridimensionalidade. Stereophonic foi criada em parceria com os produtores franceses retro-futuristas Principles of Geometry. Mais uma vez a explicação do trabalho está no blog do coletivo: “Usando estereoscópio, tecnologia usada nos cinemas IMAX para assistir filmes com óculos 3D, produziram uma jornada através de espaço em tempo real de 50 minutos de duração. Construída com filtros polarizados e silverscreen para criar efeitos 3D. Uma experiência visual excitante em contrapartida a uma trilha sonora épica.”


Da obsolescência programada: performance em três atos que parte de um convite ao público para participar do espetáculo movimentando seus celulares na platéia para uma discussão sobre a rapidez com que aparelhos eletrônicos e digitais tornam-se defasados em um contexto industrial de rápida substituição.

O início de Da obsolescência Programada acontece conforme as pessoas entram no teatro, e “são convidadas a deixar seus aparelhos celulares e/ou câmeras fotográficas digitais ligadas”. O texto de apresentação do projeto esclarece: “o público será incitado (através de um texto projetado nas telas) a levantar seus bracos com os celulares, mostrando os displays acesos voltados para cima”. A luzes dos aparelhos são projeto são capturadas no palco, e servem como base para um improviso que começa reverberando as ações do público e vai gradualmente ganhando autonomia. O responsável pelo rastreamento é o software Vimus, desenvolvido por Jarbas Jacome. O software opera “um processo de “blob detection” (detecção ou rotulação de regiões da imagem) numa técnica semelhante à utilizada em
telas do tipo multitouch”.

A segunda parte da performance desloca a interface construída com o público: agora os rastros da participação inicial iniciam um diálogo com o material produzido para a performance. “Nesse momento, as telas do fundo se acendem e as imagens sao acompanhadas de ruídos, em sincronismo que ainda afeta as imagens projetadas na tela preta frontal”. As imagens antes abstratas começam a revelar figuras, que se tornam mais explícitos com o tempo. Uma metáfora dos processos constantes de ordenação e desconstrução, “podendo por exemplo, fazer referência a estruturas deterioradas, situações anacrônicas ou ainda situações de abandono ou precariedade tecnológica”.

Quando se completa a transição para o material gerado no palco, o público se vê diante de seqüências “que registram a destruição sistemática (através de um martelo) de uma série de produtos tecnológicos, a maioria deles obsoletos ou beirando a obsolescência — mídias como floppy disks, fitas VHS, telefones sem fio, cartuchos de impressora, celulares, teclados de computador, impressoras, lâmpadas e outros”. A terceira parte de Da Obsolescência Programa busca a catarse, numa espécie de vingaça simbólica contra a velocidade do consumo. Em Cradle to Cradle. Remaking the Way we Make Things, William McDonough e Michael Braungart criticam o ciclo de obsolescência predominante nos processos industriais até hoje. Eles acreditam que as práticas vigentes de reciclagem ou ajuste a demandas ambientais são insuficientes, justamente por serem incapazes de reinventar estes processos que levam “do berço ao túmulo”. Para eles, é preciso inventar processos de upcycling em que este círculo vicioso desapareça, pois apenas atenuar seus efeitos não é suficiente para solucionar os graves problemas ambientes que o mundo atual enfrenta. Da Obsolescência Programada oferece uma reflexão visceral sobre este contexto. O trabalho discute de forma poética, ambígua e irônica, este que se coloca como um dos problemas centrais da cultura contemporânea.

Ao retomar a importância dos formatos ao vivo em sua programação (que este ano também enfatiza as possibilidades do cinema expandido em Mostras como Future Films, AND e Impakt, preparadas por curadores internacionais do porte de Steve Dietz, Mike Stubbs e Arjon Dunnewind), o 4º Vivo arte.mov amplia o leque de discussões que oferece ao público. Segue como referência nos debates sobre a arte e a cultura que surge com a popularização dos dispositivos portáteis, ao mesmo tempo que dialoga com formatos do entorno imediato das artes locativas. Desta forma, acena com uma possibilidade de circulação mais abrangente de seus conteúdos. A cultura contemporânea tem como traço evidente o cruzamento entre formatos mais pop e outros mais experimentais. Este trânsito é uma assinatura da cultura urbana desde os anos 60. Os primeiros espetáculos de imagem em tempo real foram apresentandos no UFO, clube de Londres criado por John Hopkins e Joe Boyd que foi palco das principais bandas de rock da época. De lá para cá, a separação entre pop e experimental foi perdendo o sentido. Em sintonia com esta fratura de cenários, o 4º Vivo arte.mov estimula o trânsito de linguagens entre públicos diversos, no que pode contribuir para um debate cada vez mais amplo sobre os temas que se consolidaram no festival durante seus quatro anos de existência.


Cybernetic Serendipity: exposição realizada no ICA (Londres, 1968) com curadoria de Jasia Reichardt introduziu o imaginário da tecnologia no cenário urbano, sendo importante para um processo de aproximação entre cultura pop e experimental que tem em fenômenos como o uso de instrumentos eletrônicos pelo Kraftwerk e o fomento de práticas DIY punk que antecipam a cultura de auto-publicação hoje comum com a web 2.0 outros momentos nevrálgicos.

(colaborou Karina Montenegro)

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