Um dia qualquer de 1990, Drew Hemment caminhava junto com a multidão em direção à uma delegacia de polícia, na tentativa de recuperar o sistema de som de uma festa programada para acontecer nos arredores da cidade britânica Blackburn. O caminhão que transportava o PA tinha sido apreendido numa blitz de rotina.
Na época, as festas em galpões abandonados eram uma constante no norte da Inglaterra, epicentro de uma cena DIY que serviu de inspiração para clubes famosos, como Cream e Back to Basics, e ficou conhecida como um equivalente clubber de Woodstock.
A cada final-de-semana, os encontros aconteciam em um novo lugar, única forma de garantir que a música seguisse madrugada afora, em tempos de pouca tolerância com aglomerações do tipo. A cena azedou em 1991, depois de uma série de tumultos e prisões em massa.

Flyer de uma Warehouse Party em Blackburn, no ano de 1989. A cena clubber é precursosa de uma cultura do fluxo, com suas festas que acontecem em um lugar diferente a cada fim-de-semana.
fonte: Rave Flyers Gallery
Antes de se dedicar às mídias locativas, Hemment foi DJ e produtor envolvido com a cultura clubber inglesa. Ele foi DJ residente na festa The Twilight Zone, que surgiu como conseqüência de baladas que aconteciam de forma ilegal em prédios residenciais de comunidades indígenas no oeste do Reino Unido, ao som de reggae e dub.
Hemment curtiu a ressaca desses anos entre livros de teoria pós-estruturalista, na tentativa de encontrar uma moldura conceitual para suas experiências com a cultura dance. Seu interesse passava, também, por questões políticas. Em 1999, ele completa o doutorado sobre arte, tecnologia e o corpo no âmbito da música, com a tese Microgroove.
É desta fase o artigo E is for Ekstasis, em que procura “investigar dimensões do êxtase que não vêm na forma de tabletes”. No texto, o uso do termo grego indica a busca por manifestações em que a combinação entre música, dança e os ritmos do corpo produzem estados de desinibição mental que não dependem de estímulo químico.
Em 1995, Hemment cria o Futuresonic, “uma plataforma para aumentar a ambição artística e as inclinações digitais da cultura dance”. A primeira edição do festival aconteceu em setembro de 1996 e “posteriormente tomou o rumo de um evento engajado principalmente nas artes em mídia”.
O Futuresonic se desdobra em Futuresonic Live, o braço musical do evento, e Urban Play, focado em arte e tecnologias sociais.

Migrations, tema do Futuresonic de 2002, é uma reação ao clima reacionário posterior ao 11 de setembro, quando aumentam as manifestações de ódio contra os refugiados de guerra, numa Europa que se reunifica sob o signo da tensão étnica .
