Um ativista que aposta na criatividade distribuída e no "fazer menos" como forma de atuar diante do capitalismo global multplicado em ferramentas online
Trebor Scholz atua de maneira programaticamente compartilhada. Um bom exemplo é o Institute for Distributed Creativity, rede internacional que combina produção, pesquisa, eventos e documentação, cujo eixo principal é a lista de discussão que ele fundou em 2004, e modera até hoje. Outra é a série de publicações Situated Technologies Pamphlets. São iniciativas que refletem uma aposta em procedimentos coletivos e independentes como forma de disseminar contra-discursos em uma Internet que se tornou bastante diferente da rede utópica que povoava os sonhos lúdicos da primeira geração de entusiastas de uma suposta democracia global fomentada pelo ciberespaço
O artista, teórico e ativista sediado nos EUA Trebor Scholz defende o desenvolvimento de estratégias para a criatividade distribuída, pelo desenvolvimento de espaços dialógicos em rede. Ele é um dos fundadores do Institute for Distributed Creativity (iDC), comunidade online das mais profícuas, que tem se destacado pela capacidade de fomentar discussões críticas densas e diversificadas em vários canais online, como listas de discussão e redes sociais. Recentemente, seu interesse tem sido discutir de que forma os usuários se comprometem com plataformas online, mas também como as formas de exploração do trabalho online não são visíveis da mesma forma que as formas históricas de exploração industrial, conforme resumo de palestra recente feita por Beth Coleman no site do próprio Scholz.
Um aspecto que Trebor Scholz destaca em sua análise dos desdobramentos recentes da cultura de rede é como a web 2.0 oferece um “limiar baixo para participação” efetiva. Ele aponta como “é muito fácil fazer upload, as pessoas podem enviar vídeos, entradas de blog, mensagens, favoritos, atualização de perfil e fotos, mas esse material não pode ser exportado”. Por isso, Scholz conclui de forma irônica: “um usuário ativo torna-se mais valioso com o tempo de forma similar a uma garrafa de vinho na adega”.
Em um de seus textos recentes, Trebor Scholz afirma que não acha, “de maneira alguma, que ações coletivas como as que acontecem no Facebook sejam muito típicas”. Ele considera que sites “de relacionamento são caracterizados por monoculturas plurais: pequenas ilhas nas quais pessoas que pensam da mesma forma podem socializar sem muito conflito racial, político e econômico”, na medida em que o “grau de filtro social possível em sites como MySpace, Facebook, ou todas as muitas outras plataformas de relacionamento, é extremamente alto”. A voz dissonante destoa dos elogios repetidos à chamada Web 2.0, ao chamar atenção para um aspecto nem sempre levado em consideração quando se fala de redes: o contexto social em que estão inseridas.
O trabalho de Scholz é bastante amplo, em trânsito entre arte, educação e ativismo. Seus projetos mais antigos lidam com o sentimento de deslocamento que surge com a reunificação da Alemanha e a queda do Muro de Berlim. Um exemplo é a instalação Word Monument. Apresentada em Viena, discute como muitos alemães orientais deixaram para trás sua cultura ao deixar de usar palavras típicas da Alemanha oriental, que, no entanto, hoje podem ser encontradas nos dicionários da língua. São palavras que tornaram-se mais comuns a partir de 1954, quando o partido SED decidiu abandonar influências anglófonas e religiosas na língua Alemã, passando a privilegiar o uso de palavras russificadas ou termos seculares. Na instalação, palavras esculpidas em plástico fixadas na parede constróem um memorial a um segmento moribundo da língua.
MC97a: projeto criado para defender a comunidade sem-teto de São Francisco, por meio da distribuição de cartões com a mensagem “Se você fosse sem-teto VOCÊ estaria em casa agora”
Outro exemplo é Statements and Remixes. O projeto apresentado no Museu de Arte Moderna de Ljubljana, na Eslovênia, teve como participantes, além de Scholz, Paul D. Miller, Boris Saletic, Marko Batista e Miltos Manetas. Primeiro projeto interdisciplinar da rede STRUCTURE.01, Statements and Remixes trata o conceito como a base de qualquer prática artística. Uma das premissas do grupo é gerar discussão a partir do ativismo, da construção social e da efetivação do conceito de formação híbrida, “ao invés de ficar excitado e oprimido com sua própria comunicação virtual”.
Em Discordia, outro projeto coletivo, um blog com posts que giram em torno dos temas da arte, da mídia e do ativismo é o espaço para uma experiência colaborativa em que os leitores decidem que conteúdo será publicado. Desenvolvido por Amy Alexander, Geert Lovink e Peter Traub, além de Scholz e outros, o projeto “depende principalmente de seus usuários”, para “se tornar um fórum temporário que é ativado apenas em alguns momentos ou ocasiões especiais”.
Outro aspecto da produção de Scholz são os trabalhos que flertam com o documentário. Um exemplo é Yellow Rain, um trabalho que lida com a semiótica da guerra. Em uma página com um diagrama composto de palavras como “fraticídio”, “galáxia”, “selvagem” e “ataque cirúrgico”, é possível navegar por combinações de texto e imagem em que a guerra é contada em explosões, estatísticas e declarações que vão do bombástico ao lamentável.
79 days: documentário em rede de Trebor Scholz examina a cobertura que a mídia fez das guerras no Iraque e em Kosovo, combinando gravações no local com busca em tempo real na Internet
Vale mencionar, ainda, sua atuação como crítico da sociedade em rede, por meio de cursos, palestras e textos em que se dedica à análise dos desenvolvimentos da rede e suas conseqüências sociais. Um exemplo é o curso The Social Web, que tem o programa publicado em http://www.collectivate.net/the-social-web/. Nele, Scholz formula uma crítica das redes sociais a partir da pergunta: “é viável viver vidas significativas, éticas, no contexto da Web Social hoje?”
Ao combinar áreas diversas de atuação, com postura crítica e projetos que fogem às abordagens mais convencionais da rede em busca de dinâmicas participativas e procedimentos de leitura mais preocupados em explorar a riqueza relacional da rede que seus aspectos multimídia, Trebor Scholz segue como um dos nomes mais importantes da cultura digital, pela capacidade de encontrar ângulos inusitados para olhar os fenômenos em rede, que aborda sempre com o objetivo de buscar usos mais coadunados com o interesse coletivo, público, numa época em que a intereseção entre o espaço das corporações e a vida social parece atingir o ápice.