Revista
_ 03/11/08
_ struppek / debatty


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Telas públicas e privadas como interface e/ou canal


Régine Debatty e Mirjam Struppek tem algo em comum, além de participarem da mesma mesa na edição deste ano do Simpósio do Arte.Mov, de tema “Apropriações do (in)comum: espaço público e privado em tempos de mobilidade”. Em certo sentido, ambas lidam com o novo estatuto que as telas emprestam às linguagens. Uma ao multiplicar seu blog pelas telas pequenas dos monitores e menores ainda dos dispositivos portáteis; a outra ao reunir os ecos do que circula pelas grandes telas urbanas que constróem o imaginário luminoso de metrópoles como Berlim, Nova Iorque e Tóquio. Esta edição combinada da revista Arte.Mov apresenta um pouco do universo de ambas. A opção por uma edição dupla é resultado de um esforço para oferecer ao público brasileiro uma diversidade maior de retratos dos convidados deste ano, refletindo a ampliação da programação conforme o evento consolida o escopo nacional.
Em O show do eu, Paula Sibilia descreve um tipo específico de escrita em que o sujeito molda-se conforme lapida a seqüência de parágrafo após páargrafo. Apesar de típica dos blogs, ela remonta ao relato autobiográfico e aos romances de formação, como O diário de Anne Frank, e Orlando, de Virginia Woolf. Sibilia se apóia em Philippe Lejeune, para descrever um pacto de leitura em que acredita-se haver coincidência entre autor, narrador e protagonista do texto. Mesmo que este ponto-de-vista, que cola o íntimo e o público por meio de um acento que oscila entre o confessional, o memorável (se for possível descrever assim aquilo que emerge da memória) e a encenação de si, seja mais típico dos blogs pessoais ou de livros de testemunho como The girl with a one track mind, vale perguntar: até que ponto esta escrita em que não há fronteira entre o que é dito e quem diz está entranhada no universo dos blog? O que isto significa numa sociedade em que, até não muito tempo atrás, acreditava-se na suposta objetividade dos veículos de comunicação com olhos de quem enxerga as vírgulas de uma notícia como análogos dos giros da terra em torno do sol?

We-make-money-not-art, de Régine Debatty, é emblemático deste novo contexto, e certamente revela um lado menos perturbador, mas igualmente desconcertante da cultura em rede. Os blogs que não servem apenas como instrumentos de dissolução das fronteiras entre o universo da intimidade e que o um dia foi de foro público. Os blogs que operam em outra esfera, até pouco tempo igualmente rígida, aquela que separa produtores e consumidores de informação, formadores de opinião e o respeitável público. We-make-money-not-art desafia de forma eloquente a lógica da crítica de arte, ao se fazer no trânsito por um circuito veloz, com tom informal e imediatismo que o aproximam deste estilo de escrita em que autor, narrador e protagonista sobrepõe-se numa única figura. Com a diferença que, neste caso, e apesar de Rimbaud, eu é um, e o protagonista outro. Isto acontece, como a própria Debatty explica, em visitas a galerias de arte, conferências e eventos, com muitas fotos e entrevistas com pessoas criativas, em achados que são documentados para serem compartilhados com o público.

Hoje em dia, o We-make-money-not-art é uma operação mais complexa que a maioria dos blogs, com colaboradores e anunciantes. Nem sempre foi assim. No início, o projeto era um banco-de-dados sobre arte digital. Com o tempo, começou a agregar conteúdo produzido in situ. Ao invés de buscar na web informações sobre os projetos que considerava relevantes no circuito da arte e do design, com ênfase nos de alta voltagem tecnológica (e ingredientes de baixo custo), Debatty começou a transitar por qualquer lugar onde houvesse movimento e tornou-se assim uma referência séria sobre o espectro cada vez mais amplo da cultura tecnológica. De entrevistas com artistas como Heidi Kumeo e curadores como Sarah Cook a coberturas amplas de eventos como o Ars Electronica e a Documenta ao recente Syntethic Times – MediaArtChina.


As conspirações da Transmediale foram tema do We-make-money-not-art em Fevereiro de 2008: um festival que facilitou a atitude de Regine de concentrar-se no lado positivo dos eventos sobre os quais escreve


A atuação de Debatty não se restringe às publicações eletrônicas. De fato, ela acredita ser mais reconhecida por seu trabalho como colunista de revistas  com a British Art Magazine. No trânsito entre um registro e outro, Debatty identifica uma resistência aos novos formatos, assim como especificidades de um outro, em seu entedimento relacionadas menos a problemas como credibilidade e teor das informações publicadas que a questões de morfologia da leitura na página e na tela, para não falar de problemas divertidamente práticos: quem mais pensaria em defender as revistas por serem instrumentos capazes de matar mosquitos sem o incoveniente de resultar em telas esmigalhadas ou chips voando pela sala?


Histórico de tráfego do We-make-money-not-art: conforme dados publicados no site da companhia de informações sobre a web Alexa, o blog de Regine Debatty tem, em média trimestral, um fluxo de 70.000 visitantes por dia.




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Mirjam Struppek acredita que as telas urbanas podem construir um novo espaço público, que fratura a geografia e transgride territórios, ao aproximar lugares distantes pelo brilho dos leds eletrônicos colocados nas fachadas de museus, lojas, casas, etc. Para ela, um caminho fértil para o uso dos displays cada vez mais comuns ao redor do globo é o funcionamento conectado com a Internet e os blogs. Se estes são tanto redutos de uma intimidade expandida quanto lugar de um fluxo de informações cuja mediação é menos hierarquizada, faz sentido pensá-los também como engrenagem privada que alimenta de conteúdo as telas públicas.

Para efetivar suas idéias, Mirjam organiza o Urban Screens, festival que investiga como o uso corrente das telas comerciais pode ser ampliado com conteúdo cultural. O evento cobre os campos da cultura digital, do urbanismo, da arquitetura e da arte, com objetivo de construir redes e sensibilizar partes interessadas para as possibilidades de uso da infraestrutura digital para contribuir para um sociedade urbana mais viva. Desta forma, Struppek espera desviar o uso destas telas para um uso mais comunitário, criando identidades locais e engajamento.

O conceito de Telas Urbanas surgiu no contexto de uma pesquisa feita por Struppek em duas etapas: primeiro ao estudar os resultados da projeção de vídeo feito pelo Artgroup [STRICKTLY PUBLIC] no maior outdoor de leds de Berlin, pelo período de um mês; depois ao desenvolver o tema de uma conferência realizada pelo Institute of Network Cultures e o Department of Art in Public Space, em Amsterdam, em Setembro de 2005.


Colagem publicada no site do Urban Screens 08, com a Fed Square, no centro de Melbourne, e sua imensa tela urbana

Em 2007, Struppek realizou ou Urban Screens 07, em Manchester. Com objetivo de explorar as condição das telas urbanas de uma múltiplos pontos-de-vista, reuniu artistas e especialistas do mundo todo, com ênfase especial nas possibilidades arquitetônicas oferecidas pelos displays inseridos na cidade. Esta edição do Urban Screens levou a público trabalhos de artistas e grupos como Trevor Morgan, Victoria Media Netork, Richard Vikers, Trampoline, Bill Seaman e Blast Theory, entre outros.


Inversion, de Bill Seaman e Regina Van Berkel: mistura de instalação e dança que explora o tema da nanotecnologia por meio de textos poéticos, composição musical, sistema generativo, vídeo, elementos escultóricos e luz variável.

Em 2008, foi a cidade de Melbourne que abrigou o Urban Screens. Promovendo uma abordagem transdisciplinar que explora o aumento de imagens em movimento nas telas urbanas, a primeira edição do evento banhada pelo Pacífico teve como sede a Federation Square. Nesta edição, participaram artistas como Gabe Sawhney e Michael Bielicky, e foram exibidos filmes de cineastas como Godfrey Reggio e Steven Spielberg.


I used to believe: projeto de Sara Cole em que as pessoas enviam para uma grande tela mensagens de texto em que fala sobre coisas que costumavam acreditar quando eram crianças; baseado no site criado por Mat Connelley, o projeto estimula as pessoas a lembrarem de quando eram crianças, ao mesmo tempo assustadas e fascinadas com o mundo.

Também em 2008, Struppek realizou o Media Façades Festival, no bairro Mittë em Berlim. O projeto reuniu no Deutsches Architektur Zentrum documentação de projetos realizados em cidades como Seul, Lisboa, Munique e Tóquio, com ênfase em formatos que permitem integrar a exibicão de audiovisual a situações arquitetônicas em que a tecnologia e a suntuosidade são ingredientes-chave. Desta forma, Struppek avança com uma pesquisa forte, que discute um aspecto central do urbanismo contemporâneo.

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