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_ 06/08/08
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O lado B dos portáteis: improviso, informalidade e desconstrução no universo da mobilidade


A terceira edição do arte.mov discute o deslocamento do lugar da arte no contexto da cultura da mobilidade. Um aspecto vigoroso do universo das mídias móveis é o improviso e a informalidade, e o arte.mov aponta para o imaginário popular e inventivo associado a produções desse tipo. Telefones celulares são itens de consumo íntimo. Por isso, as pessoas inventam usos que adequam os aparelhos às suas necessidades, aumentam sua versatilidade ou mesmo subvertem seu projeto industrial.
Entre estas perguntas que (com mais ou menos força) se recusam a desaparecer do horizonte de dúvidas coletivas de certas épocas, uma têm se repetido com eloqüência que parece colocá-la no centro das preocupações recentes: qual será o destino da grande quantidade de lixo eletrônico que se acumula hoje em dia, em escalada exponencial com o surgimento de aparelhos de rápida obsolescência como telefones celulares e outros portáteis? Neste contexto, vale investigar o lado B da produção para estas mídias, lembrando que o contraponto evidente desta preocupação é o fato de que os telefones celulares, por conta do preço baixo se comparado com computadores fixos, são responsáveis por permitir que camadas sociais até então excluídas da cultura digital naveguem pela Internet sem a necessidade de recorrer a terminais públicos em bibliotecas ao a cybercafés e lan-houses.

O ponto-de-partida parece anacrônico: faz sentido falar em lado B num contexto em que a audição de músicas online ou pelo iTunes em shuffle faz esquecer que os CD tem ordem? Será que alguém ainda lembra que, no tempo em que a música vinha gravada em vinil, era praxe que compactos trouxessem o hit no lado A e músicas consideradas menos vendáveis no lado B? Mas o tema pode retroceder ainda mais, talvez relevando que a distância entre anacrônico e histórico é um tanto arbitrária. Em Hello Central? Gender, Technology and Culture in the Formation of Telephone Systems, Michéle Martin recupera vários artigos sobre o surgimento do telefone, que demonstram o grande entusiasmo com a invenção considerada na passagem do século XIX ao XX um símbolo de cooperação e eficiência. O livro mostra que esta celebração deixa escapar muitos aspectos do uso do aparelho, muitas vezes bastante diferentes do pretendido pelos engenherios das primeiras companhias de telefonia. O exemplo que Martin transforma em estudo de caso de seu livro é o uso do telefone pelas mulheres para conversas domésticas no início do século XX, considerado embaraçoso pela Bell Company.

Hello Central? revela como os usos da tecnologia muitas vezes diferem das expectativas de seus desenvolvedores. Algo parecido acontece hoje em dia com os telefones celulares. Vale a pena, conhecer estes usos inesperados dos aparelhos portáteis. São exemplos de como os projetos industriais nem sempre estão em sintonia com as necessidades de seus usuários. Outro aspecto deste uso imprevisto é a subversão programática do aparelho, como na proposta flusseriana de abertura da caixa preta. A seguir, serão apresentados procedimentos deste uso imprevisto de telefones celulares, palms, receptores GPS e outros, sem deixar de lado exemplos curiosos, fascinantes ou apenas divertidos.

Jan Chipchase, pesquisador da Nokia que viaja o mundo estudando os diferentes usos dos telefones celulares avalia que em cada lugar que ele visita há uma comunidade emergente de hackers e “fuçadores”. O elogio mostra um entusiasmo bastante curioso, mas que revela a complexidade do assunto. O próprio Chipchase fundamenta seus comentários em expedições de campo nas quais documenta um dos casos mais interessantes dentro deste universo, o da cultura do reparo informal. “Informal Repair Cultures”  (http://www.janchipchase.com/repaircultures), post em seu blog  (http://www.janchipchase.com/) sobre a cultura do conserto  de aparelhos em estabelecimentos sem a chancela de assistência técnica dos fabricantes, mas com soluções engenhosas e de baixo custo suficientes para cativar um público amplo.

A prática acontece em lugares como Chengdu, Delhi, Ulan Bataar, Ho Chi Minh, Lhasa, Kampala e Soweto e não se restringe apenas ao conserto de telefones quebrados. Também é comum o procedimento conhecido como upcycling, que implica em reaproveitamento de partes de telefones usados para construir novos aparelhos, não raras vezes com potência superior aos antigos. Não é um processo restrito a telefones celulares e quem freqüenta a rua Santa Ifigênia no centro de São Paulo sabe que não é novo nem típico apenas de países na Ásia e na África. Mas as peculiaridades dos aparelhos portáteis tornou mais intenso o procedimento, que pode ser entendido como um tipo de reciclagem.


Em Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things, William McDonough e Michael Braungart definem o processo de upcycling como a “prática de pegar algo descartável e transformar em algo útil e valioso” (foto: Jan Chipchase)

Chipchase acredita ser “justo reconhecer que bens dos mercados negro e cinza também são parte do ecossistema do mercado de telefones — seja a prática de vender falsificações ou programas piratas” e acrescenta que “para os consumidores a cultura do reparo informal é bastante conveniente, eficiente, rápida e barata, reduzindo o custo total da posse de aparelhos para pessoas que consideram uma pequena queda de preço a diferença entre poder ou não ter um aparelho”.

Neste contexto, vale destacar a série Scrapyard Challenge Workshops, coordenado por Jonah Brucker-Cohen em parceria com Katherine Moriwaki, em que os participantes constróem projetos eletrônicos a partir de “lixo” tecnológico. Os resultados são diversos, de equipamentos músicais a vestíveis e robôs que desenham. É uma iniciativa com formato comum hoje em dia, adotado também pelo Mediengruppe Bitnik em sua série A hack a day, dedicada ao desenvolvimento de transmissores de TV pirata e dispositivos que capturam imagens de câmeras de vigiliancia, e grupos como o Metareciclagem e o Estúdio Livre, com seus workshops sobre hardware e software livre.

São cruciais estas práticas que tem por finalidade reduzir a quantidade de lixo tecnológico, especialmente diante do fato de que a portabilidade dos telefones celulares os torna vulneváreis a quedas e acidentes que reduzem seu ciclo útil. Conforme o texto de apresentação de Cradle to Cradle publicado no site de William McDonough, “o conflito entre indústria e meio-ambiente não é resultado do comércio mas sim uma inflação de design puramente oportunista”. Em certo sentido, o upcycling propõe alternativas a este contexto, enquanto os esforços da indústria de telefonia para produzir aparelhos ecologicamente corretos não se efetivam.


Remade: aparelho da Nokia em que o teclado é feito de pneus de carros e os componentes plásticos de garrafas PET recicladas (fonte: http://www.yankodesign.com/index.php/2008/06/23/a-phone-made-from-trash/).

Mas a reutilização de materiais não responde a todas as preocupações possíveis no que se refere a aparelhos ecologicamente corretos. Outro aspecto a ser levado em conta é a toxidade dos componentes. Conforme relatório publicado no site da Basel Network Action, quando descartados os aparelhos de telefone celulares são lixo tóxico, mesmo quando a bateria é removida. Conforme post no site Yanko Design, um celular típico tem 44 dos 112 elementos da tabela periódica, o que pode ter efeitos imprevisíveis quando se leva em conta quanto tempo o aparelho fica próximo do corpo humano (no bolso ou em uso).

Nada garante que as combinações químicas nos componentes do aparelho ou as radiações emitidas durante uma ligação sejam prejudicias à saúde, mas o assunto tem sido estudo de forma cada vez mais sistemática. Um exemplo é o relato publicado no BBC News sobre um estudo recente feito no Reino Unido, com objetivo de estudar a relação entre torres de transmissão de celular e sintomas como ansiedade, náusea e cansaço. Envolvendo várias Universidades britânicas, a pesquisa demonstra que não há evidência de que as ondas do telefones sejam prejudiciais à saúde. Ainda que existem muitos casos de pessoas que apresentam sintomas reais, não fica claro quantas sofrem de “eletro-sensitividade”, alergia que alguns acreditam ser disparadas por aparelhos modernos. Em testes, tanto os supostos alérgicos quanto o grupo de controle foram incapazes de detectar a presença ou não de ondas eletromagnéticas.

Esta percepção de que os projetos de produto industriais nem sempre levam em conta aspectos ecológicos é responsável por uma valorização sem precedentes de práticas informais de construção e reparo, algo comum em países como o Brasil, mas até não muito tempo raros nos centros industrialmente mais avançados. Este cenário está mudando. Há em grandes cidades ao redor do mundo um hype em torno de iniciativas ecologicamente corretas. Não se trata de algo tão recente, mas o fenômeno vem assumindo novas facetas conforme aumenta o número de telefones celulares em uso. Também não é um fenômeno exclusivo do universo da portabilidade, mas a forma como as pessoas se relacionam com aparelhos de pequeno porte pode ser afetada, na medida em que celulares e afins estão entre os principais itens de consumo contemporâneos.

Um exemplo são os novos modelos de troca na moda em Berlin, conforme matéria de Teté Martinho na revista FFW>Mag, em que afirma: “umas marqueteiras, outras idealistas, as tentativas de questionar nosso sistema de trocas estão fazendo um barulhinho bom numa cena dominada pelo consumo enlouquecido”. Além de restaurantes em que se paga o que considerar justo pelo que foi consumido, destaca-se o exemplo radical da Umsonst Laden. A loja, gerenciada por um coletivo da cidade,  usa o lema “Sem dinheiro, sem produto, sem consumo” como bandeira para instituir um sistema em que recebe doações e entrega até três produtos de seu estoque para pessoas que justifiquem a necessidade de levá-los.

Outro exemplo é o universo que gira em torno da revista novaiorquina Make!, que se auto-denomina a primeira revista voltada para tecnologias DIY, com objetivo de “unir, inspirar e informar uma comunidade crescente de pessoas que desenvolvem projetos impressionantes em seus jardins, porões e garagens”. Esta cultura de criar dispositivos conforme interesses pessoais, em contextos não industriais, se aproxima de procedimentos da arte feita com dejetos tecnológicos, ainda que as finalidades de ambas sejam completamente diferentes.


O lugar do som: Oterp é um exemplo de como o espaço tem se tornado um parâmetro importante na contemporaneidade, conforme as tecnologias GPS ficam mais populares

Oterp, de Antonin Fourneau, é o protótipo de editor de som construído em um console PSP com um GPS integrado permite a manipulação em tempo real de som, de acordo com a localização do usuário. O aparelho também ganha novos sons, quando levado a certos lugares programados previsamente. O intuito é misturar realidade e sons de videogame. Segundo Jonah Brucker-Cohen, “é uma idéia bem interessante e vamos definitivamente ver mais projetos do tipo como advento do iPhone 3G e a inclusão do GPS a seus recursos de áudio, game e vídeo”.

Outro projeto que mistura música e os novos contextos de redes, com o intuito de levar as tecnologias para as ruas, é Burn-station, do Platoniq. O projeto fomenta a distribuição de música por meio de um software de código aberto que permite gravar CDs não comerciais com material cedido com esta finalidade. Desde 2003, o projeto tornou-se móvel. Uma van transita por espaços suburbanos e convida pessoas a trazer seus CDs para ouvir, editar e gravar suas próprias compilações, em processo legal e gratuito.

Transborder Immigrant Tool, de Brett Staulbaum e Ricardo Dominguez, é uma ferramenta construída num Motorola i455 que ajude imigrantes cruzarem a fronteira entre o México e os EUA. Acessando diversos serviços de localização geográfica por meio de um algoritmo de caminhadas virtuais, o dispositivo tem por objetivo reduzir as mortes ao longo da fronteira, ao indicar recursos estratégicos como água e esconderijos, ou vibrando quando próximo de estradas.


Chamadas botânicas: com ajuda do Twitter e de um telefone celular, projeto de Rebecca Bray desenvolvido com grupo de colegas de pós-graduação na New York University

Mas nem só imigrantes precisam sobreviver e nem só contextos inóspitos pedem soluções criativas para o uso das tecnologias portáteis. Botanicalls Twitter é um sistema de auxílio 24 horas para plantas domésticas. Ótimo nestes tempos de umidade escassa em São Paulo, o projeto permite monitorar vasos à distância por meio de atualizações na plataforma social Twitter.  Quando uma das plantas incluídas na rede precisa de água, ela faz uma ligação e diz o que precisa. Também é possível ligar para as plantas, que dizem por telefone quais seus hábitos e características.


Ainda na linha mobilidade e sobrevivência: N=1=NPK=KIMCHI=N, de Jae Rhim Lee, é uma unidade móvel auto-sustentável, que produz alimentos a partir de urina filtrada (fonte: http://www.we-make-money-not-art.com/archives/2007/07/-n1npkkimchin-i.php)

Os trabalhos reunidos acima mostram que há uma série de esforços para propor usos alternativos dos dispositivos portáteis. Não se sabe se eles vingarão, mas certamente trata-se de prática importante, quando se leva em conta a necessidade latente de inventar usos da tecnologia menos pautados apenas pela eficiência do projeto ou pelo potencial de colocação no mercado. Vale lembrar, a título de conclusão, um trecho do texto The Life and Death of Media, de Bruce Sterling: “entende-se evolução estudando o registro fóssil. O arcano, o fora do padrão, o esquecido. As falhas, o perdido e o enterrado, o maudito-da-mídia. Os precursores mortos dos sucessos posteriores. Algumas formas de mídia tornam-se obsoletas, mas outras são assassinadas. Algumas inovações são empurradas muito forte por pessoas espertas e poderosas como muito dinheiro, e ainda assim falham. Eu acho isto particularmente interessante”.

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