Um panorama da produção de audiovisual e arte para mídias móveis no Brasil e no mundo
A segunda edição do Telemig Celular Arte.Mov cresceu em complexidade e consolidou o formato que combina audiovisual para mídias portáteis, trabalhos de artistas que investigam novos rumos na área e debates sobre temas pertinentes ao universo da produção com aparelhos como telefones celulares, palms e GPS, entre outros. O desafio, de agora em diante, é consolidar o diálogo sólido com a cena local, nacional e internacional, mantendo-se como espaço para a discussão das tendências mais recentes das artes para mídias móveis.
Um diferencial importante da segunda edição do Festival Internacional de Arte em Mídias Móveis foi a inserção de trabalhos no espaço público, no caso o Parque Municipal de Belo Horizonte. Faz tempo que se aponta o fato das chamadas mídias móveis construírem redes ubíquas e distribuídas. Mas os projetos que exploram esta simbiose entre conectividade e espaços abertos nem sempre recebem a atenção devida, na medida em que ficam restritos aos circuitos especializados. Como já foi discutido, em edição anterior desta revista, uma parte representativa do audiovisual que circula pelas telas de celulares e iPods ainda prende-se ao modelo de exibição forjado pelo cinema. Ele privilegia a conveniência de ter uma tela disponível a qualquer momento, ao invés de outras características igualmente importantes, e talvez mais contundentes, dos aparelhos portáteis.
Com os aparelhos de terceira geração já disponíveis no mercado local, em breve o acesso à Internet de um terminal fixo ou móvel vai se dar sem grandes diferenças de preço e desempenho. Além disso, os telefones celulares são mais populares que os computadores pessoais e logo devem (coisas do Brasil) estar à venda em cidades que sequer dispõe de água encanada. São aparelhos mais baratos, mas provavelmente o fato de reunirem diversas funcionalidades num mesmo pacote também seja importante, neste contexto. Por outro lado, seus aplicativos são mais fechados, especialmente quando comparados com a cada vez mais modular e customizável Web 2.0. E o modelo proprietário aliado ao potencial de localização faz dos celulares tecnologias em que os aspectos positivos e negativos são bastante contrastantes.
Mas, elencar prós e contras desta ou daquela tecnologia não é suficiente para dar conta do cenário complexo da cultura contemporânea. Pelo contrário, a experiência da Internet mostra como os usos possíveis das redes oscilam e se multiplicam. Apesar da distribuição ainda assimétrica, as tecnologias digitais espalham-se cada vez mais, construindo geografias até então inexistentes e permitindo usos inéditos das cidades. Um exemplo curioso é a forma como os celulares vêm sendo usados na África, onde permitem que setores da sociedade antes excluídos se engajem na cultura digital. Outro exemplo é o modo como os mesmos aparelhos modificam as formas de sociabilidade entre jovens, conforme discutido no livro “Moving Cultures”, de André H. Caron e Letizia Caronia. Os usos possíveis das mídias portáteis estabelecem um contraponto entre seus aspectos positivos e negativos.
Este contraponto fica claro, quando se compara trabalhos como Invisíveis, de Bruno Vianna, ou Tactical Sound Garden, de Mark Shepard, com o documentário feito por Drew Hemment sobre o projeto LOCA – Set to Discoverable. Os dois primeiros apontam possibilidades poéticas de sinergia entre redes informacionais e espaço público, enquanto o último denuncia o potencial de vigilância pervasiva contido nos aparelhos, em mecanismos simples e úteis como a tecnologia bluetooth. Num exame mais cuidadoso, pode-se entender todos os três trabalhos dentro de uma perspectiva próxima, de esforço por buscar usos não previstos nos manuais das tecnologias que empregam, ainda que nem sempre este esforço apareça também como metadiscurso crítico.
Em Invisíveis, Vianna constrói uma narrativa que mistura os registros documental e ficcional, a partir da experiência de anônimos que convivem no Parque Municipal de Belo Horizonte sem serem percebidos pelos demais freqüentadores. Por meio da triangulação de antenas, ele faz com que ao caminhar pelo Parque, com um aparelho adequado em mãos, seja possível ver imagens e ler textos sobre indigentes que dormem numa escadaria ou casais que se conheceram embaixo de uma determinada árvore, entre outras pequenas crônicas de um cotidiano que de outra forma continuaria desconhecido. Ao combinar imagens reais, vistas pela tela do celular, com imagens sintéticas que flutuam sobre elas, o projeto explora de maneira eficiente novas formas de sobreposição entre espaços públicos e espaços informacionais.
Tactical Sound Garden propõe uma abordagem semelhante, como já foi descrito em artigo publicado nesta revista. O trabalho permite plantar e cultivar sons que constroem um jardim sonoro acessível por meio de uma interface criada para telefones de última geração. Vale observar como este uso dos aparelhos portáteis em espaços públicos cria uma espécie de intimidade expandida. Retorno contemporâneo de Heráclito, engendrando redes em que nada permanece atrelado ao mesmo espaço. Impossível habitar duas vezes o mesmo mundo, nestes tempos líquidos em que as cidades são rios de dados.
Além do trabalho e das caminhadas locative que fez com o público, Shepard também discutiu como a popularidade do iPod em ambientes urbanos aponta para um desejo de personalizar a experiência da cidade contemporânea com a própria trilha sonora pessoal das pessoas. Ele acredita que dispositivos do tipo permitem que seus usuários construam certas exceções às convenções para a interação social dentro do domínio público. Para ele, colocar um par de fones de ouvido concede uma espécie de licença social, permitindo às pessoas moverem-se pela cidade sem necessariamente se envolverem demais e livrando-as de uma responsabilidade de reagir ao que está acontecendo ao redor delas.
Em LOCA, mais que a relação entre aparelho portátil e espaço físico, o que está em foco é a articulação de redes sem fio. Por meio de um cluster com nós interconectados, auto-suficientes e equipados com Bluetooth é feito o mapeamento de usuários de telefone celular que são posteriormente contatados sem sua permissão. O projeto pretende alertar para as potenciais formas de invasão de privacidade que as conexões densas entre redes dos mais diversos tipos permite.

Drew Hemment instala uma das traquitanas bluetooth utilizadas na implementação de LOCA – set to discoverable feita em San Jose durante o festival ZeroOne, em 2006.
Esta vertente que problematiza os usos possíveis e os problemas potenciais das redes mistas também esteve representada na segunda edição do 2º Festival Internacional de Arte em Mídias Móveis pelo Participatory Urbanism, grupo de pesquisa multidisciplinar que discute a presença da tecnologia móvel no cotidiano e busca usos menos previsíveis. Conforme o statement do grupo, precisamos “romper o preconceito de que nosso telefone celular é simplesmente uma ferramenta de comunicação e celebrá-lo em seu novo papel de instrumento pessoal de medição capaz de sentir nosso ambiente natural e potencializar ações coletivas”.
O convívio com estas tecnologias tornou-se cotidiano e quase banal, o que muitas vezes implica em pouco distanciamento de seus usuários, e leva a um uso ingênuo e pouco crítico, que ignora mesmo conseqüências imediatas de práticas triviais. Nesse contexto, as redes digitais (fixas e móveis) apresentam alternativas cada vez mais sólidas de organização política e construção de cenários coletivos, num mundo de privacidade escassa e falência relativa de direitos civis básicos. Exemplos de comunidades como o Facebook, experiências como a do Sarai, listas como – empyre – e [iDC] ou fenômenos como as flashmobs convivem com polêmicas como a da compra do MySpace pelo grupo Time-Warner, a identificação que o jornal New York Times fez de um usuário do AOL a partir da análise de dados de suas atividades online e a atuação problemática do Google na China.
Alguns destes temas foram objetos do primeiro dia do Simpósio Tecnologias socias: os dispositivos móveis como agentes de utopias e distopias coletivas, o módulo do 2º Festival Internacional de Arte em Mídias Móveis dedicado ao debate de idéias. Na fala de abertura, Armin Medosch fez uma arqueologia bastante detalhada dos modelos e formatos de comunicação sem-fio. Seu objetivo foi retomar “a invenção do rádio como momento em que surgem utopias de sociedades democráticas a reboque de mídias potencialmente bidirecionais e, portanto, capazes de estimular o exercício do debate coletivo”.
Para Medosch, os desenvolvimentos mais recentes na internet e na área das comunicações móveis e sem-fio, assim como o universo em expansão dos softwares de código aberto, permitem aos usuários níveis sem precedente de acesso à informação, em contextos que o transforma em produtor potencial de bens culturais. Sua principal preocupação é como esse potencial libertador ameaça cair aos pedaços em meio a um jorro de controle cibernético insano, em meio a polarização que leva a questões que ele considera cruciais: será que os artistas das novas mídias podem ser mais do que meros precursores no uso de gadgets da indústria, fazendo trabalho experimental para corporações a baixo custo? Ou eles apenas dão sentido a frases de efeito que de outra forma permaneceriam vazias?
Outro aspecto interessante da questão foi abordado por Antoni Abad, que apresentou seus canais comunitários criados com uma combinação simples, mas potente, de tecnologias fixas e móveis. Abad vem produzindo, desde 2004, uma série de projetos que tem por objetivo conferir ferramentas de publicação online a grupos geralmente marginalizados, tais como motoristas de táxi na Cidade do México, ciganos em León e Lleida (cidades espanholas), prostitutas em Madri, deficientes em Barcelona e jovens motoboys em São Paulo – curiosamente este último foi o disparador de toda a série e só se concretizou em 2007. Seu trabalho se configura também como uma rede de intervenção em espaços públicos físicos e virtuais. A distribuição de celulares e conexão sem-fio à internet sobre uma arquitetura de modelo “muitos-para-muitos” pode, eventualmente, ajudar a moldar uma possível aplicação social da tecnologia.
Um outro aspecto desta sobreposição entre mundo físico e redes é o surgimento de interfaces do que costuma-se chamar de realidade mista, de que o grupo inglês Blast Theory é um bom exemplo. O Blast Theory veio ao Brasil este ano para apresentar seus principais projetos, e estudar as possibilidades de criar um novo trabalho para a próxima edição do Telemig Celular Arte.Mov. Além de reunir na galeria versões stand alone de Can You See Me Now? e Uncle Roy All Around You, o festival trouxe ao público uma instalação com o vídeo single-channel Trucold. Além disso, Ju Row Farr discorreu, ainda no primeiro dia do Simpósio, sobre as principais as preocupações do grupo e seus pontos de vista sobre o relacionamento entre tecnologia e espaço público.

Corredor de Can You See Me Now? orienta-se por interface que combina Palm, celular e GPS. Um dos aspectos do trabalho do Blast Theory é o estímulo a novas formas de sociabilidade em cidades perfuradas por sistemas de realidade mista.
Em paralelo a este primeiro dia de Simpósio aconteceram caminhadas pela cidade de Belo Horizonte, no contexto dos projetos de Arte Locativa que foram eixo temático desta edição do Telemig Celular Arte.Mov. As caminhadas foram organizadas pelo Preemptive Media, por Bruno Vianna e por Mark Shepard, ainda que nem todas as saídas tenham sido acompanhadas pelos artistas. No caso do Preemptive Media, o objetivo era coletar dados sobre a poluição atmosférica em pontos específicos de Belo Horizonte, para futuramente serem transferidos para Googlemaps exibido na galeria do Festival, mostrando por meio de uma escala de cores a densidade de poluição nas áreas visitadas.
O Preemptive Media explora um outra aspecto da sobreposição entre cidade e redes informacionais. Seu objetivo, em AIR, é conscientizar o público sobre temas ligados ao ativismo ambiental. O projeto é descrito pelo próprio grupo como um experimento “público e social em que as pessoas são convidadas a usar dispositivos de monitoramento de transmissão portátil criados para explorar ambientes urbanos em busca de locais onde há muita poluição e queima de combustíveis fósseis”. Com auxílio de uma interface que combina GPS e medidor de gases como o Monóxido de Carbono, é possível gravar os níveis de poluição em lugares específicos em um banco-de-dados para posterior tratamento dos dados por meio de interface que permitem a visualização e o entendimento das informações. Ainda segundo o grupo, o projeto “funciona como ferramenta para indivíduos e grupos para a identificação de fontes de poluição, e como plataforma para discutir políticas de energia e seu impacto sobre meio-ambiente, saúde e grupos sociais em regiões específicas”.
Além das caminhadas e do trabalho na galeria, Beatriz da Costa e Brooke Singer também ofereceram ao público que assistiu o segundo dia do Simpósio uma visão global de seu trabalho colaborativo no Preemptive Media, entre os anos de 2002 e 2007, apresentando projetos como Swipe, Zapped!, Moport e AIR, já descritos em edição anterior desta revista dedicada ao grupo, que foca em questões relacionadas à vigilância de dados e, mais recentemente, à discussão sobre políticas de energia e meio-ambiente, incentivando o engajamento participativo para estimular o acesso público a questões sociais importantes, freqüentemente tratadas como especializadas ou obscuras a despeito de sua importância para todos os segmentos da sociedade.

Dispositivo criado pelo Preemptive Media para medir a quantidade de gases como o monóxido de carbono e outros poluentes.