Revista
_ 20/10/07
_ antoni abad


Edições Anteriores



As tecnologias portáteis como suportes para a consolidar laços comunitários e ampliar a visibilidade de grupos à margem


Antoni Abad é pioneiro da arte digital na Espanha. Seu trabalho mais recente está voltado para o desenvolvimento de comunidades com auxílio de tecnologias portáteis. São projetos realizados em diversos lugares do Mundo, através da distribuição de telefones celulares para grupos como taxistas, prostitutas, motoboys e ciganos
 

A palma da mão como medida questiona a arbitrariedade dos sistemas de medição e coloca o homem no centro de um sistema em que o corpo torna-se escala do mundo
 
Sísifo, o personagem mítico usado por Albert Camus como tema de sua reflexão filosófica sobre o absurdo da condição humana, é também ponto-de-partida para a videoprojeção homônima criada por Abad em 1995. No Sísifo mítico, o personagem é condenado a rolar morro acima uma pedra que sempre cai durante o percurso, o que o obriga recomeçá-lo sempre e a despeito da frustração anunciada. Ciclo infinito e sem sentido em que é impossível cessar o gesto impotente a que o personagem vê-se obrigado em seu castigo exemplar.
 

Entre as representações famosas de Sísifo está a de Ticiano: na mitologia grega, o personagem é considerado um símbolo da luta vazia pelo poder, ou da busca contínua por conhecimento
 
O Sísifo de Abad é um corpo sintético que disputa um cabo de guerra com seu próprio reflexo. Paradoxo de forças similares, luta do eu contra si mesmo, que só pode resultar em anulação recíproca. É significativo o uso da corda ao invés da pedra. A corda simboliza elos, entre eles os links da rede para que o trabalho foi criado. Além disso, a corda é a matéria do “nó”, termo que na cultura digital é usado para nomear as conexões públicas a partir das quais é possível acessar a Internet.
 

Avesso da rede: o Sísifo sintético de Antoni Abad coloca o usuário diante de um espaço especular em que o eu luta contra si mesmo
 
Em Últimos Deseos, de 1995, um equilibrista caminha sobre corda frouxa, devagar quase caindo. Assim como no Sísifo o corpo masculino é o personagem. Rodrigo Alonso explica que “a peça reitera a figura masculina desnuda, a virtualidade de sua presença e a recorrência de uma ação prolongada no tempo presentes em Sísifo, mas no deslocamento da figura de um extremo a outro da área de projeção, medindo com os pés a longitude da corda, evoca Medidas Menores” (2) e explica que a partir deste momento as obras de Abad passam a tornar-se cada vez mais convidativas à participação do usuário.Dois exemplos são Ciencias Naturales, de 1997, e 1.000.000, de 1999. São trabalhos que indicam o caminho que será consolidado em Z, também de 1999.
 
Em Z, uma mosca virótica multiplica-se conforme é distribuída via Internet. É um trabalho que pesquisa o desenvolvimento de redes descentralizadas, conforme explicado na página de Abad na comunidade online Rhizome.org (entra link). Em artigo no MedienKunstNet, Claudia Gianetti explica que “a versão da obra Z produzida em 2003 por Antoni Abad tenta criar uma rede de comunicação que se espalha independentemente de um servidor central. Cada mosca é ao mesmo tempo receptor e transmissor. No final do projeto, o código fonte é distribuído para comunidades horizontais interessadas em criar redes de comunicação e informação distribuídas” (3).
 

Em Love Story, de 1997, Abad estabelece uma analogia entre o comportamento dos ratos e dos homens, em outro exemplo de seu fascínio por animais
                  
O deslocamento na direção de trabalhos em que a participação é cada vez mais importante acentua-se com o desenvolvimento de www.zexe.net, o projeto mais recente de Abad. Em www.zexe.net, telefones celulares são usados para ampliar laços comunitários e permitir maior visibilidade à grupos de outra forma relegados à margem da mídia. Em certo sentido,  o ´projeto ser entedido como um outro lado de Sísifo. Em www.zexe.net, dá-se um elo entre um e outros, que torna-se potência coletiva, enquanto em Sísifo há um laço que coloca o personagem contra ele mesmo, em gesto cíclico que anula sua capacidade de avançar.
 
www.zexe.net é uma série de diários construídos coletivamente, com sons, imagens e / ou vídeos criados com telefones celulares. O projeto está sendo desenvolvido desde 2004. O procedimento é o mesmo nas várias implementações. Um grupo específico de uma cidade recebe um certo número de aparelhos para serem usados durante o desenvolvimento do projeto, e passa a retratar seu cotidiano, publicando o material na Internet.
 
Os canais já existentes são Taxistas na Cidade do México, Ciganos em Leida e Leon, Prostitutas em Madri, Pessoas Descapacitadas em Barcelona, Migrantes Nicaragüenses na Costa Rica e Motoboys em São Paulo. No conjunto, oferecem uma amostra rica da diversidade de grupos que vivem à margem da sociedade de superexposição que se consolida. São uma resposta eloqüente à trivialização dos blogs e, até mesmo, de formatos audiovisuais à la big brother.
 
(1) Alonso, Rodrigo. “Entre la Etología y la Antropología”, in La Ferla, Jorge (ed.). Medios audiovisuales. Ontología, Historia y Praxis. Buenos Aires: Libros del Rojas, 1999.
 
(2) Alonso, Rodrigo. Idem.
 
(3) Gianetti, Claudia. “Aesthetic Paradigms of Media Art”, in: MedienKunstNetz. http://www.medienkunstnetz.de/themes/aesthetics_of_the_digital/aesthetic_paradigms/
 


#11
antoni abad


bussola